quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

o mais profundo é a pele

é que além disso, não sabia porque precisava arrancar os pelos que novamente insistiam em crescer. como é isso de dizer exatamente o que se sente? seria possível? como fazer as palavras expressarem o que sentia no exato momento em que lia a própria pele? procurava pelos menores detalhes, pelas mínimas marcas que a faziam tão diferente . olhava. procurava. o menor dos detalhes a perdia horas no banheiro... as marcas dos pelos arrancados e dos que lhe iam nascendo por cima iam ficando em sua pele. a pele era seu único mapa. como ser encontrável para si? como se encontrar se vestia o único mapa que dispunha? tanto se olhava e menos se via. todo esse desconforto reverberava além mapa: suas roupas também lhe iam mal, como se nunca tivessem sido feitas pra ela. usava-as por sobre o mapa. tampava-se de si mesma e dos outros. e se a encontrassem? e se descobrissem nela uma rota de acesso, um caminho possível? se nem ela própria teria ousado ainda se percorrer... ia ficando cada vez mais difícil se mostrar e sabia que chegaria uma hora em que não teria escolha. quando se dava era sempre no escuro. entregaria-se como bem a quisessem, mas no fim sempre se escondia. se escondia no escuro, num canto com um gemido baixo de quase-satisfação. tateava-se.

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

o que passou passou

Me encho de passado
Me esvazio das vontades
Perco as forças e me deixo levar
Se hoje é hoje como posso esquecer o que passou?
Eu sei que estamos sempre indo
Eu sei, nada é estanque, tudo se renova, mas será?
Até que ponto as coisas deixam de ser?
É esse resíduo que nunca vou conseguir apagar
Olho pra trás, viro estátua de sal
Não posso olhar pra trás e seguir, se olho pra trás instantaneamente me apago no presente
Deixo a casa, vou correndo, vou embora, quero ar, mas eu não posso fugir de mim mesma.
E seu eu tivesse amnésia?
E se eu simplesmente esquecesse quem eu sou, quem você é, quem todo mundo é... poderia começar de novo?

Quando o passado vem em onda, lembro de quem fui, lembro de todas as situações, todas as tristezas, todas as alegrias... todas?
Até que ponto posso confiar nas memórias? memória é memória e o que foi não é, mas e quando o que é sempre é depois?
Nunca se poderá saber de nada.

Mergulho em mim
Mergulho no que foi e não sei se volto

Bom mesmo é sair, tomar um ar e esquecer
Esquecer é o que alivia
Esquecer pra seguir.

domingo, 15 de setembro de 2013

o que já foi

de novo e de novo e de novo
nada é real, tudo impressão, marca de um que já foi
então o que é?
me diz meu amor, porque não sou capaz de perceber o que é?
se estou sempre atrasada
sempre no que já foi

será que tem de ser tudo sempre tão perfeito?
se já sabemos que o perfeito não existe então por que ainda o esperamos?
se todas as cartas de amor são ridículas, me diz, por que continuamos a escrevê-las?
esperando os acontecimentos de sempre
por que insistindo?

eu, pra quem o agora é sempre depois
eu que vivo de memória

domingo, 18 de agosto de 2013

amarelo

amarelo
sai de dentro de mim
escorre pelas pernas sujando roupas, pés chão, espaço

tente esquecer
esquecer é o impossível, o impossível que nunca se repete
só repete dentro de mim.
só o impossível dentro de mim (como um disco arranhado).

Um disco arranhado se repetindo.
Os músculos sempre tensos
Se esquecem quando podem relaxar
Pontos que doem por todo o corpo
O remédio que não é espera
Que me suja por dentro
E tudo por fora (sempre limpo, sempre em ordem)
Dentro é sujo
A sujeira transbordando pela vagina
As entranhas se apertando
Se reprimem
A cabeça pesando.
Os ombros caindo
Acordo no meio da noite com a perna travando
O pescoço também travando
O corpo desmontando pelo que não entende

Deixo-me desmontar pelos segundos, pelos minutos, pelas horas, pelos dias.
Sem forças pra falar
Mais uma draga que engulo
Mais uma draga que me engole.

Distâncias que nunca se encontram porque são a incoerência uma da outra.

A dor alerta.
dilata.
estala.
engasga.
entope.
concentra.
aperta.

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

a bela que virou fera

era uma vez a bela que aprendia a ser fera e a fera que aprendia a ser bela, só que o era uma vez já era.


"Hoje eu acordei com medo mas não chorei
Nem reclamei abrigo
Do escuro eu via um infinito sem presente
Passado ou futuro
Senti um abraço forte, já não era medo
Era uma coisa sua que ficou em mim, que não tem fim
De repente a gente vê que perdeu
Ou está perdendo alguma coisa
Morna e ingênua
Que vai ficando no caminho
Que é escuro e frio mas também bonito
Porque é iluminado
Pela beleza do que aconteceu
Há minutos atrás"

https://www.youtube.com/watch?v=xYQDMX-Z9K4


andar na rua e ver a fera em cada pessoa que passa
andar na rua e se sentir fera de si mesmo.

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

acreditar

e agora como vou fazer pra dizer o que sinto no sumo do peito? como dizer que não acredito mais? por que às vezes parece tão real, mas depois parece que vou afundar de novo? afundo e afundo num ciclo vicioso. eu quero sair, ver a luz, não quero cair no abismo pela segunda vez. E se eu acreditar? E se eu achar que acredito em algo que não é, que nunca foi? Por que sempre me sinto tão vulnerável a você? a porta está aberta e eu não posso sair. não quero ser Teresa e ir embora querendo na verdade que você venha me resgatar. sua indiferença impassível é o que mais me destrói, perto disso me sinto tão fraca e caio de novo no abismo. Parece que tudo o que acredito vira sonho, que nunca existiu... como faço pra ver o que é? por que você não se importa e eu fico me sentindo mais uma vez exposta à poeira dos dias... no fim das contas parece que tudo só existiu dentro de mim. e eu já não sei mais como acreditar. dá vontade de parar de tentar arrancar as raízes... e só deixar elas entrarem mais na carne. por que estou desistindo tão fácil? é que o medo de pensar que sou livre pra ir é maior do que o meu medo de ficar.

"De Ulisses ela aprendera a ter coragem de ter fé - muita coragem, fé em quê? Na própria fé, que a fé pode ser um grande susto, pode significar cair no abismo, Lóri tinha medo de cair no abismo e segurava-se numa das mãos de Ulisses enquanto a outra mão de Ulisses empurrava-a para o abismo - em breve ela teria que soltar a mão menos forte do que a que a empurrava, e cair, a vida não é de se brincar porque em pleno dia se morre."

terça-feira, 30 de julho de 2013

medo de baobá

É que se não cuidamos, qualquer palavra, qualquer olhar (mal-entendidos), qualquer memória despreocupadamente compartilhada, pode virar em semente de baobá no coração do outro. É preciso dizer, lembrar ao outro o quanto ele nos é importante. Isso é atualizar quem amamos na nossa vida. O tempo pode engolir as sementes de amores-frágeis que lançamos ao vento. É que me espanta o quanto somos fadados ao erro, ao descompasso. E se estar é ser, e se esse instante agora já for demasiadamente suficiente? O que virá a ser não existe e o que passou se transforma no que é. Pior é o que não foi. Esse também se não cuidamos vira baobá, de raízes fundas, que dó no coração, impossível tentar arrancar, melhor prever o seu surgimento.
Assim me deixo cair na neutralidade. O neutro me protege (ou pelo menos me faz sentir protegida). É a neutralidade do não-poder, não é indiferença (ainda não), é o que me dá leveza. Enfim admitir que não controlo nada, sobretudo no que diz respeito a mim mesma. Tudo flutua.

"Agora não pergunto mais pra onde vai a estrada
Agora não espero mais aquela madrugada
Vai ser, vai ser, vai ter de ser, vai ser faca amolada
O brilho cego de paixão e fé, faca amolada

Deixar a sua luz brilhar e ser muito tranquilo
Deixar o seu amor crescer e ser muito tranquilo
Brilhar, brilhar, acontecer, brilhar faca amolada
Irmão, irmã, irmã, irmão de fé faca amolada

Plantar o trigo e refazer o pão de cada dia (Plantar o trigo e refazer o pão de todo dia)
Beber o vinho e renascer na luz de todo dia (Beber o vinho e renascer na luz de cada dia)
A fé, a fé, paixão e fé, a fé, faca amolada
O chão, o chão, o sal da terra, o chão, faca amolada (...)"

segunda-feira, 22 de julho de 2013

o eterno

Aqui tudo é dilúvio. o Agora é o que não espero. é o eterno que sempre vai e vem. não quero esperar nada da vida. quero ir junto com o eterno. o eterno me livrará. vou me duluir no mundo. o fluxo me engolirá e deglutirá. cansei de pensar no que sou. essa é a pergunta que não se faz. quem estará pronto pra saber?

quinta-feira, 18 de julho de 2013

a paixão segundo G.H

Nesta minha nova covardia - a covardia é o que de mais novo já me aconteceu, é a minha maior aventura, essa minha covardia é um campo tão amplo que só a grande coragem me leva a aceitá-la -, na minha nova covardia, que é como acordar de manhã na casa de um estrangeiro, não sei se terei coragem de simplesmente ir. É difícil perder-se. É tão difícil que provavelmente arrumarei depressa um modo de me achar, mesmo que achar-me seja de novo a mentira de que vivo. Até agora achar-me era já ter uma idéia de pessoa e nela me engastar: nessa pessoa organizada eu me encarnava, e nem mesmo sentia o grande esforço de construção que era viver. A idéia que eu fazia de pessoa vinha de minha terceira perna, daquela que me plantava no chão. Mas e agora? Estarei mais livre? Não.(…) Como é que se explica que o meu maior medo seja exatamente em relação: a ser? E no entanto não há outro caminho. Como se explica que o meu maior medo seja exatamente o de ir vivendo o que for sendo? Como é que se explica que eu não tolere ver, só porque a vida não é o que eu pensava e sim outra. (…) E uma desilusão.Mas desilusão de quê? se, sem ao menos sentir, eu mal devia estar tolerando minha organização apenas construída? Talvez desilusão seja o medo de não pertencer mais a um sistema. No entanto se deveria dizer assim: ele está muito feliz porque finalmente foi desiludido. O que eu era antes não me era bom. Mas era desse não-bom que eu havia organizado o melhor: a esperança. De meu próprio mal eu havia criado um bem futuro. O medo agora é que meu novo modo não faça sentido? Mas por que não me deixo guiar pelo que for acontecendo? Terei que correr o sagrado risco do acaso. E substituirei o destino pela probabilidade. No entanto na infância as descobertas terão sido como num laboratório onde se acha o que se achar? Foi como adulto então que eu tive medo e criei a terceira perna? Mas como adulto terei a coragem infantil de me perder? Perder-se significa ir achando e nem saber o que fazer do que ser for achando. As duas pernas que andam, sem mais a terceira que prende.E eu quero ser presa. Não sei o que fazer da aterradora liberdade que pode me destruir. Mas enquanto eu estava presa, estava contente? Ou havia, e havia, aquela coisa sonsa e inquieta em minha feliz rotina de prisioneira? ou havia, e havia, aquela coisa latejando, a que eu estava tão habituada que pensava que latejar era ser uma pessoa. É? Também, também. Fico tão assustada quando percebo que durante horas perdi minha formação humana. Não sei se terei uma outra para substituir a perdida. Sei que precisarei tomar cuidado para não usar sub-repticiamente uma nova terceira perna que em mim renasce fácil como capim, e a essa perna protetora chamar de “uma verdade”. Mas é que também não sei que forma dar ao que me aconteceu. E sem dar uma forma, nada me existe. E – e se a realidade é mesmo que nada existiu?! Quem sabe nada me aconteceu? Só posso compreender o que me acontece mais só acontece o que eu compreendo – que sei do resto? O resto não existiu. Quem sabe nada existiu! Quem sabe me aconteceu uma lenta e grande dissolução? E que minha luta contra essa desintegração está sendo esta: a de tentar agora dar lhe uma forma? Uma forma contorna o caos, uma forma dá construção à substância amorfa – a visão de uma carne infinita é a visão dos loucos, mas se eu cortar a carne em pedaços e distribuí-los pelos dias e pelas fomes – então ela não será mais a perdição e a loucura: será de novo a vida humanizada. A vida humanizada. Eu havia humanizado demais a vida. Mas como faço agora? Devo ficar com a visão toda, mesmo que isso signifique ter uma verdade incompreensível? ou dou uma forma ao nada, e este será o meu modo de integrar em mim a minha própria desintegração? Mas estou tão preparada para entender. Antes, sempre que eu havia tentado, meus limites me davam uma sensação física de incômodo, em mim qualquer começo de pensamento esbarra logo com a testa. Cedo fui obrigada a reconhecer, sem lamentar, os esbarros da minha pouca inteligência, e eu desdizia caminho. Sabia que estava fadada a pensar pouco, raciocinar me restringia dentro de minha pele. Como, pois inaugurar agora em mim o pensamento? E talvez só o pensamento me salvasse, tenho medo da paixão. Já que tenho de salvar o dia de amanhã, já que tenho que ter uma forma porque não sinto força de ficar desorganizada, já que fatalmente precisarei enquadrar a monstruosa carne infinita e cortá-la em pedaços assimiláveis pelo tamanho de minha boca e pelo tamanho da visão de meus olhos, já que fatalmente sucumbirei à necessidade de forma que vem de meu pavor de ficar indelimitada – então que pelo menos eu tenha a coragem de deixar que essa forma se forme sozinha (...)" (a paixão segundo G.H, clarice, p10-13).

segunda-feira, 15 de julho de 2013

grão

amor: grão, semente tão frágil, tão forte, tão eterna... pequenina e vasta, lançada ao vento!


é o infinito de um grão.
um grão de segundo
um grão de terra
um grão de existência
um grão de possibilidade.

a leveza do instante

então tudo fica leve
nada mais importa tanto assim
indiferença?
não, leveza.
tudo escorre
como espuma do mar
me escorro
me vou
voo
longe longe longe longe
estou longe longe longe
a maior importância de tudo está no agora que escorre
nada morrerá
tudo morrerá
tudo renascerá
porque agora é sempre

sofrer com o peso do passado, do futuro, do não-dito, do inventado... tudo perde o sentido
tudo se desfaz
tudo se refaz
como onda do mar vou
me vou
me escorro
vontade de dizer eternamente
vontade de silenciar eternamente
vontade de:

sexta-feira, 12 de julho de 2013

vale a pena colher os frutos?

mas quais são esses frutos? nunca colherei os frutos que espero. como a gente se ilude!
eu que antes me via enxarcada por uma chuva de certezas, uma verdadeira tromba d'água era a minha vida, um riacho que corria por dentro... hoje olho pro céu límpido e seco. é o deserto em que estou. nesse deserto tudo é paz. tudo é silêncio e solidão. um estar em si que não cabe em si. é a abelha que não sabe que está presa. é a barata que não sabe que é eterna. é a vida que não sabe que é vida porque é.

segunda-feira, 1 de julho de 2013

As palavras incompreendidas: tem de ser assim?

A vida me vem em ondas, em rajadas. Me afoga, me abranda, me aturde, me alerta, me embala. Não tenho o direito de saber aonde vou. Sou levada. Deixo-me levar... Tem de ser assim? Tem de ser assim! tem de ser assim! Suas palavras me confundem. Minhas palavras lhe confundem. Somos dois estranhos que já se viram mas não lembram de onde. Numa praia ausente de movimento, gesticulamos, gritamos sem nos ouvir. Impossível nos ouvirmos. Já reparou em todo esse silêncio ocupando o espaço? Preenchendo o vazio das ondas sonoras... O silêncio se transformou numa massa densa que desmancha no ar. Se desintegra. Nos desintegra. Você se entrega ao sono pesado do não-saber. Eu desbravando noites infinitas de insônia, tentando entender. É inútil. Nunca nos será dado o direito de entender. As palavras se transformam em ondas sonoras que se (de)formam no espaço. As palavras são ditas, desditas e reditas. As palavras se quebram em toda a sua fragilidade. São leves, são levadas, se chocam na grande massa de silêncio do espaço. Abençoadas sejam as palavras que podem ser compreendidas e incompreendidas. O peso da escolha sentenciando a vida: nada pode ser diferente do que é. As palavras estão na vida. Uma vez ditas, elas são. Porém, possuem a grande vantagem sobre a própria vida: podem ser ditas, desditas, reditas... se transformam a cada onda, a cada vez que são ouvidas se ressignificam. O mesmo vento que as leva, as traz de volta. Porém, não é mais o mesmo vento, e por mais que traga as mesmas palavras, essas já serão compreendidas de uma outra forma. Nada é igual a nada. Graças por termos inventado as palavras. Porque nelas temos a capacidade de inventar e reinventar aquilo que deixa de ser.

da leveza e do peso (ou o medo de viver)

Para ela era insuportável o peso. Ela era quase esmagada por seu próprio peso e pela leveza dele. Seu peso a envergonhava. Sempre o escondia (até de si mesma). Agora ia ficando fraca. Era o abismo a sugando? Queria cair, não queria mais pensar no que pensariam dela. Só queria que a deixassem em seu canto, caindo. Queria esquecer o que sentia. Não queria mais sentir o que sentia. Não queria mais ser quem era. Queria mostrar para si mesma o quanto era forte. Estava cansada de se trair, de se contradizer. Sentia vergonha de estar sendo quem era, era desonesta consigo. Não adiantava dizer que estava tudo bem, e fingir para si mesma que era leve, não era, nunca tinha sido. E agora estava prestes a se libertar de uma situação que só havia lhe trazido sofrimento. Ela havia se viciado no sofrimento, mas agora havia decidido tomar um rumo diferente. Já não queria mais pensar nos efeitos que essa sua atitude poderia causar. Queria apenas sumir. Completamente. Se enfiava em situações que não sabia como sair. Sim, iria fugir. Fugir agora não era mais sinal de fraqueza, mas sua maior franqueza. Precisava se respeitar. Se não se respeitasse, ninguém mais o faria. Ela veio se sabotando durante muito tempo. Se enganando que era tudo leve. Mas ela estava se escondendo de si mesma. Suportando um fardo que não era seu. Não tinha que ser. Não era mais. Estava cansada. Cansada de olhar no espelho e ver a fraca que era. Fraca por não ter coragem de fugir. Fraca por alimentar uma situação que detestava. Fraca por ter estado sempre lá. Pronta pra quando precisassem dela. Era usada porque se deixava usar. Ele nunca a amara. E isso era um fato. Por que era tão difícil admitir? Acontece. Não poderia mais suportar, estava caindo... E pensava se agora também não estaria se enganando. Se essa atitude não seria uma forma de se iludir. Um silêncio que no fundo gritava: “olhe, estou indo embora, me segure!” Não, se fosse deveria ir de uma vez. Retornava sempre ao mesmo ponto de partida. Mas não partia. Nunca conseguia partir. Agora precisava ir sem olhar pra trás. Ir sem deixar uma espera. Ir sem qualquer espera. Estava adiando a vida que transbordava dentro dela. Esses jogos que criava, que alimentava... isso não levaria a nada. Sabia disso. Por que continuar? Por que se enganar? Se fosse embora estaria sendo ela mesma. Estaria sendo honesta. Queria amar ainda. Queria ser amada ainda. Precisava se permitir isso. Se continuasse se prendendo estaria evitando a vida. Já não podia mais evitar a vida. No fundo sabia que se acomodava nessa eterna espera pra evitar a vida. O sofrimento que forjava para si mesma nessa espera nem se comparava ao sofrimento que estaria exposta se resolvesse viver de fato. Seria um sofrimento real. Tal qual sentira das últimas vezes que tentara viver. Quando a vida lhe ultrapassara. Quando de repente não pode mais dar conta da vida. Então se agarrou aquele sofrimento velho, esgarçado. Aquele sofrimento que nem sofria mais, só fingia sofrer. Que a iludia de estar vivendo. Era tudo uma grande mentira que inventara pra si mesma. Que inventara para se proteger. O trauma tinha sido mais fundo do que imaginara: não sofria mais pelo sofrimento em si (ele já havia se esgotado, tanto que não chorava mais), agora sofria pelo medo, pelo medo de viver.

Sobre a última plenária das esquerdas “unificadas”: celebrando nossa desunião

Foi com grande desgosto que presenciei mais um dia de “revolução” cá na terra de Vera Cruz. Parece bobo o que vou dizer aqui, mas senti a necessidade de escrever esse texto documentando minha percepção dos fatos ocorridos nesse último encontro (novamente numa tentativa desesperada).
Para mim, a plenária de ontem representava uma tentativa de diálogo comum entre os movimentos populares atuais (partidários ou independentes). Aguardei ansiosamente para ouvir as novas medidas e propostas de ação que tais movimentos estariam dispostos a apresentar. Sinceramente, fui de coração aberto. No entanto, só o que presenciei foi um grande desrespeito e incompreensão mútua. Me perguntei muito seriamente: será mesmo que é o fim da esquerda no Brasil? Queridos, confesso que saí de lá bastante preocupada... simplesmente não havia meios de diálogo possível. E o que mais me impressionava é que falávamos a mesma língua, e estávamos lá pelos mesmos motivos.
Como o IFCS estava bastante cheio, foi decidido que a discussão seria feita na parte externa do prédio. Houve ainda vários trâmites para serem resolvidos e nos adequarmos a essa organização: a espera do carro de som, a disposição das pessoas no espaço, etc. Dentro de tudo isso, uma das primeiras dificuldades foi fazer com que as pessoas concordassem em realizar a plenária sentadas, depois disso, começaram as diversas votações sobre como se daria a organização da plenária (inscrições, tempo de fala, etc.). O que demonstrava uma preocupação importante em garantir a democracia, mas que se tornava cansativo à medida que os presentes não demonstravam a mínima disposição para o consenso. Uma coisa entendi ontem: não basta ser libertário e querer estabelecer uma “nova-democracia”, ou ainda se dizer anarquista, socialista e ter grandes idéias revolucionárias. Antes disso, é preciso que tenhamos algumas atitudes basilares, essenciais se pretendemos fazer parte de um coletivo: respeito, consciência de cidadania, saber ceder, calar e ouvir quando necessário, e (o mais importante e mais difícil) abrir mão do egoísmo.
Confesso que não fui capaz de permanecer até fim da plenária (quando tudo foi se tornando muito pesado e não tive condições físicas e morais de continuar). A verdade é que me cansei de ouvir as pessoas pegarem o microfone para repetir o que eu e (acredito que) todos os que estavam lá ontem já estávamos cansados de saber com relação a todas as carências de nossa situação política e econômica. Pessoal, nós já constatamos os fatos (esse passo já foi dado), essa é a hora de decidir o que fazer daqui pra frente pra mudar isso. E agora nós estamos vivendo um momento importantíssimo pra pensar nisso. Só o fato de termos conseguido nos reunir num mesmo espaço, com tantos membros de coletivos populares quanto conseguimos ontem, já era uma oportunidade preciosíssima para tentarmos alguma comunicação.
O mais triste de tudo isso, não é saber de todos os problemas do país, mas constatar que estamos ainda muito distantes de realizar uma transformação de verdade. Apenas pelo simples fato de não conseguirmos nos comunicar, pois estudando teoria da comunicação, entendo que comunicar é “o ato de tornar comum, conhecido; idéias, pensamentos, sentimentos e propósitos, para que através disso, nos façamos compreender e alteremos algum comportamento”, e isso (até aonde assisti), a plenária de ontem infelizmente não alcançou.

segunda-feira, 24 de junho de 2013

inverno ou traição

O que nos mata, bem aos ppoucos, é a solidão. é o vazio que é a imensidão do infinito. Os raros encontros, que são muito mais desencontros. Algum remédio anti-monotonia, ou que te dê alegria. Sempre foi assim, desde que se lembra. No fim, quando o domingo acaba, com aquela sensação de algo que nunca recomeça. Deixe-se ser engolida pela solidão. Que já nem é mais ruim. Nem bom nem ruim. Só o que é. Futuro não existe. Presente repete passado. Mas e esse frio que não passa... o calor, quando houve, foi ilusão. Conservo uma pequena e frágil chama que te move. Frágil, mas é o que te fortalece. Escondendo essa solidão que te acompanha. Veja um filme. Procure seus amigos. Se distraia com as bobagens que os outros falam. Você mesma não conseguirá dizer nada. Leia um livro pra passar o tempo. Pra disfarçar o vazio que te preenche. Uma companhia qualquer lhe preencherá. A sorte. A sorte é o que te salva. O (re)encontro. Não precisa de sentido. Se houver sentido é o sem-sentido. No seu mundo, qualquer coisa morre todo dia. Qualquer coisa que já nem era qualquer coisa assim. Vai virando qualquer coisa. Nenhuma coisa. Alguma coisa que foi, que será, não-será. Dormir. Dormir pra esquecer. Dormir é sua droga-natural favorita. Dormir alivia o peso. É como se carregasse o peso do mundo nas costas. E de repente pudesse descansar.. a noite. Mas é a noite que me encontro comigo. Que sou racional no bom sentido. Pensar me limita. Penso que penso e já não penso. Então sou feliz. Assim sou a noite. Quero só dnçar pelada e ser feliz. Qaulquer musica serivirá. Uma velha que nunca ouvi, mas o silêncio também serve. O silêncio que também me esvazia. Que me apavora. Penso que me perdi de mim. Na verdade, me perco de você e me encontro no infinito. e quando o silêncio pede pra falar? é justo quebrar o silêncio quando ele quer ser quebrado? Tudmo se dilui no tempo e no silêncio. Fica parecendo apenas que acordei de um sonho. Do avesso da vida. É verdade que quem ama não vive? Acho que estou vivendo... o que dizer senão silêncio? Estou cansada de parecer.. não ´e o que é? Antes o meu medo era o de falar. Medo da resposta. Hoje o meu medo é o de dizer. Medo de trair o meu silêncio. Medo de trair a mim mesma... medo de voltar atrás. Voltar também é ilusão. Sinto que posso trair a todos, mas porque é mais diicil trair a mim mesma?

sexta-feira, 21 de junho de 2013

não é pra ser bonito!

Amigos, escrevo porque depois da noite de ontem preciso desse desabafo.

Foi revoltante passar por tudo aquilo, assistir a tudo aquilo como um grande filme absurdo que nem o Fellini conseguiria imaginar. Uma vita que não tinha nada de dolce. Ontem, a noite foi de desgosto, foi de vazio, foi de impotência, foi de solidão pra mim e meus amigos. Ontem senti pena do brasil e senti pena de mim mesma por ter de presenciar esse espetáculo que a mídia está contruindo. Senti pena e vergonha de existir.

Em primeiro lugar, não existe segurança. A segurança é uma falsa ilusão inventada por essa merda de Estado burguês que vivemos. A ideia de segurança só serve para manter a ordem. só pra isso. não adianta achar que assistindo tv, ouvindo rádio vc estará sendo bem informado porque hoje vivemos uma merda de uma ditadura velada, silenciosa e traiçoeira. a ditadura imposta pela mídia que acoberta e muda de opinião a todo momento. não importa o que aconteça, ela vai dar um jeito de destorcer. Vale tudo pra manter o poder e a alienação. Por isso eu digo: sou a favor do vandalismo sim! porque na hora de lucrar ninguém pensa no coitadinho que tá lá se fodendo na favela... "O Brasil acordou e a Favela nunca dormiu." Ninguém quer saber de vc que "provocou a polícia porque quis" e acabou com um esprei de pimenta na cara, ou sufocado com gás. Quer dizer que os atos de vandalismo, de estorção, de estupro ideológico que nós sofremos todos os dias não significam nada??? Então todo abuso é legítimo porque eles estão no poder??
O que tem acontecido nos últimos dias? Na primeira onda de protestos a mídia tentou minimizar o movimento, mas quando viu que não teria jeito partiu pro outro extremo da situação: fez com que a "ideia" do movimento crescesse. O que quero dizer com a "ideia": a mídia agora quer mesmo nos fazer acreditar que devemos ir às ruas pra reivindicar um poder que ela nunca abrirá mão? Me pergunto: somos tão ingênuos pra acreditar nisso? E o pior, queridos, foi ver que somos sim. Ontem, o que mais vi foram brasileiros contentes e felizes pintando o rosto de verde-amarelo, vestindo a camisa oficial da seleção brasileira, pulando, festejando uma vitória que estamos muito longe de alcançar. Sinceramente, senti vergonha. "E os que o vissem não saberiam dizer: se era um préstito lutuoso, arrastado, poeirento, ou um desfile carnavalesco." Quem acha que a revolução é bonita, é gloriosa, não sabe o que é revolução. Eu digo: eu não sei o que é revolução. Não sei porque vivo num país que só conhece a revolução dos livros de história, que idealiza e sonha com um tempo que já foi e que também não teve nada de glorioso. A glória, meus queridos, está em nosso olhar quando olhamos pra trás. Quem está na luta não está pensando em posar pra foto com cartaz pra dps postar no Instagram que estava presente no evento do Facebook "Mudança do Brasil". Eu não quero mostrar isso pros meus filhos. Eu prefiro não ter filhos a colocar mais um ser humano no mundo pra sofrer como eu sofri ontem por ter de passar por tanto absurdo numa mesma noite.
Por favor, meus amigos, vamos ficar mais atentos e pensar um pouco mais antes de acreditar em tudo que vemos na tv, Vamos buscar apurar um pouco mais os fatos. Sejamos um pouco mais espertos antes de reproduzir esse discurso vazio que confunde nacionalismo com movimento popular. Uma coisa não tem nada a ver com a outra. Nacionalismo no brasil também é uma coisa inventada pra fazer as pessoas acreditarem que pertencem a alguma coisa e lotar os estádios de futebol... movimento popular é mais embaixo. Parem de dizer que a revolução é bonita e que o vandalismo é feio, vamos fugir do pensamento dicotômico só um pouquinho e começar a pensar de verdade com a própria cabeça, antes de repetir o que o Cabral já disse na TV das Barcas S.A. sobre as manifestações: "é muito bonito!" Não, não é pra ser bonito.

quinta-feira, 13 de junho de 2013

errância e Prazer

Era o medo de não ter forças para viver: o prazer lhe amedrontava. O medo de ter medo do prazer amedronta. Ela mal havia vislumbrado o prazer. Nem sequer o havia tocado. O tocar seria demais para ela ainda. Mas imaginava sua grandeza. E o vislumbre da imagem do que poderia ser o prazer era-lhe por demais gigantesco, sentia-se pequena. No entanto, este sentimento de ser pequena não era humildade. E sua arrogância já a envergonhava: como poderia ter medo do prazer? Como poderia pensar que não era suficientemente capaz de ser um humano? Como poderia não se permitir ser um humano e errar? Errar era o que mais a humanizava. Ah, precisaria errar tanto antes de chegar perto do prazer... somente quando pudesse errar sem sofrer, sem torturar a si mesma. Só então estaria sendo humilde e boa consigo, estaria em paz com a condição humana que lhe fora incumbida. Enquanto ainda não se sentia capaz de ser um humano, estaria escondida em seu medo de viver, adiamento de ser, irmão da arrogância inconfessável. Gostava de se imaginar limpa de erros, mas descobria que precisava antes se curvar perante O Prazer, O Grande Prazer que habitava o desconhecido. O seu medo de errar, o seu medo de não estar pronta para viver, além de adiar a vida e lhe imobilizar, demonstrava o quanto ainda fugia à entrega a imensidão que era errar e enquanto fugisse não poderia se tornar um humano. Estava então se entregando agora ao desconhecido. Queria uma coragem que não podia pedir, coragem que só lhe vinha quando era. Amedrontada diante da vastidão do desconhecido e da humildade que não tinha. Estava sozinha. E a entrega ao desconhecido era o máximo de solidão que poderia se dar. Quando pudesse caminhar livre e só, com suas próprias pernas, seria então de uma certeza firme e precisa de quem não sabe aonde vai, mas vai. Estava agora enfrentando o desafio de ser forte. Cansar-se seria fácil, já havia muitos cansados. Ser forte lhe exigia uma grande coragem. Coragem de ser. E nisso, já não buscava mais nem prazer nem dor. Esperava o que lhe viesse com a surpresa de quem vive o óbvio.

segunda-feira, 10 de junho de 2013

a Humildade de ser

Eu estou ardendo num inferno. o Inferno Sagrado. essa é minha provação maior a mim mesma. De repente tudo se abranda e eu deixo de negar a vida que tenho. E me revolvo no limbo que é o lugar estreito. Negar o estreito também é uma atitude do desespero.

"- Que é que eu faço? Não estou aguentando viver. A vida é tão curta e eu não estou aguentando viver.
- Mas há muitas coisas, Lóri, que você ainda desconhece. E há um ponto em que o desespero é uma luz e um amor."

O desafio maior é ser forte
A entrega ao desconhecido é o máximo de solidão que eu poderia dar a mim mesma
E nesse momento eu vivo uma solidão aterradora.
É preciso ter coragem de viver o prazer da entrega
O medo de ter medo de viver me amedronta,
medo de não dar conta do prazer que para mim ainda é o desconhecido.

quinta-feira, 30 de maio de 2013

ilha deserta

E então a mulher percebia que já não era preciso temer estar só. Já não precisava ter alguém consigo que lhe protegesse. Não, ela poderia muito bem andar pelas ruas muito só. Tudo o que viesse a lhe acontecer não era porque estivesse só, mas porque lhe devia acontecer. E então, podia caminhar assim a noite muito livre e dona de si. Sim, agora se dizia dona de si. Porque não precisava de mais ninguém para ser dono dela mesma, e justo agora, percebia que era muito dona de suas pernas e que, estas a poderia levar para onde quisesse. Porque agora se dizia uma mulher crescida, sem namorado e muito bem obrigado. Nunca antes havia se permitido essas pretensões. Pois que agora era ousada. É, se dizia dona de si e ainda por cima ousada. Enfim podia ser franca consigo mesma. Olhava os casais na rua que se aparavam e se perguntava se estes já haviam passado por algo semelhante ao que ela passava agora. Será que já haviam se sentido completamente sozinhos e seguros de si na mundo? Será que por já terem vivido isso agora enfim poderiam se dar ao luxo de caminhar assim pela rua de mãos dadas. Por opção. Preferia acreditar que sim, que estas pessoas que via passarem por si agora estavam acompanhadas por opção. Porque já haviam estado muito consigo mesmas e não que não gostassem de sua própria companhia, mas que haviam reconhecido no outro um meio de conhecer mais sobre a vida e sobre as coisas, não por necessidade. Já havia ficado em companhia de outros seres humanos por necessidade e sabia que havia hoje em dia muitos que ainda faziam isso. Sabe aquela sensação de ser desonesto consigo mesmo? Pois é, ela já tinha sentido isso antes e tinha decidido que não, agora era um momento de se descobrir a si mesma. E sabe que há muito havia previsto que esse momento um dia havia de lhe chegar? Pois que só agora percebia a riqueza que se dispunha diante dela. Ela e a companhia dela mesma. Nossa, isso seria um deserto infinito de existências. E só agora sentia que podia valorizar isso de fato. Pensava nas distancias que atravessava consigo mesma, às vezes com alguma companhia, mas em geral, muito sozinha. Enquanto isso observava as crianças que tarde da noite brincavam na rua e que não precisavam se preocupar em como voltariam pra casa porque provavelmente moravam ali do lado. E amou aquelas crianças. Amou a sorte delas. Não com inveja, não. Pois já havia aprendido a respeitar suas próprias distancias. E amá-las também. Agora amava as distancias que ainda havia de atravessar. Porque estas lhe significavam conquistas e desafios que ultrapassava. Que havia de atravessar. Sempre que ultrapassava um novo desafio significava que estava expandindo em seu próprio espaço. Que estava crescendo para si mesma e para o mundo. E assim ia aprendendo a amar mais o mundo e as coisas.



(Deleuze, "Ilhas Desertas")

sexta-feira, 24 de maio de 2013

vida em morte ou maio

sim, nunca há testemunhas
e assim maio me avança
me atravessa
me rasga
me despedaça
antes que eu me lembre de quem eu era
já não me lembro mais
me ultrapasso no agora
no passo que se faz firme
porque assim deve ser
nas olheiras que me afundam e me fundam no meu tempo
estamos expostos à vida o tempo inteiro e não nos damos conta
só não percebemos porque nos adaptamos num semi-viver
quando se vive de verdade se morre ao mesmo
é só quando morremos que estamos vivos
eu estava lá toda aberta e a vida sangrando em volta
tudo era carne-viva e morta
e depois então a paz
paz de se compreender
de se abraçar e dizer: "já vai passar... não é nada"
quando somos capazes de compreender a nós mesmos não há a necessidade de que ninguém mais o faça.
estou em mim mesma.

"Le rouge et le naît des tortures sont les fleurs du mal." (noir désir)

quando for capaz de me respeitar e de amar meu rato
só então serei digna de amar o mundo.



"Como posso amar a grandeza do mundo se não posso amar o tamanho de minha natureza?" (c. lispector)

sábado, 18 de maio de 2013

confiar

confiar no que se é
é o que é
agora é
não perguntar mais por onde vai a estrada
não esperar mais por aquela madrugada
a confiança pura não está na esperança que espera acontecimentos
a vida é sempre um acontecimento
todo dia é
basta ser e confiar no que se é
quando enfim posso olhar a folha em branco sem me preocupar em preencher todos os espaços
cada espaço será também preenchido pelo não-preenchimento.
quando enfim posso ser honesta comigo e assim com os outros.
nem sempre será preciso dizer o que se pensa
silenciar será dizer muito mais
silencio porque confio
a existência não precisará ser preenchida por palavras e ações
porque uma folha com um ponto negro no centro não é apenas um grande vazio com um ponto negro no centro,
porque esse grande vazio também é.
tudo é.
ainda bem.


"O que é Deus estava mais no barulho neutro das folhas ao vento que na minha prece humana.Então vê, meu amor, a verdade não pode ser má.A verdade é o que é.Eu estava habituada somente a transcender.Esperança pra mim era adiamento. Eu nunca havia deixado minha alma livre.E descobri que não é necessário sequer ter esperança.Porque as coisas são o que são.Basta saber isso."

domingo, 12 de maio de 2013

ensaio sobre a pele

o que eu sinto você não pode saber, ninguém sente como ninguém. será que o tom de minhas palavras lhe fere? me diz, o que adianta querer que o outro sinta e se aflija como você? ninguém sente como ninguém. as peles são diferentes. as peles se tocam, mas nunca se sentem. as peles mal sentem a si mesmas. pele áspera. pele silêncio. pele emaranhado. pele camada. pele profundidade. pele textura. pele densidade. pele encrustada. pele disfarce. pele proteção. pele roçar. pele engasgar. pele sexual. pele rasgada. pele dentro da pele. pele membrana. pele prisão. pele entrada. pele saída. pele porcelana. epiderme. derme. hipoderme. pele é carne.

a dor que sente a nossa carne é a dor que apenas a nossa carne sente.
quando me ouve não é a mim que tua carne ouve, é a toda memória, toda marca que nela habita.

"A pele é o maior órgão de todo o corpo humano e graças a ela nos relacionamos com o meio ambiente. Além do fato dela desempenhar papel de vital importância, por ser uma barreira contra infecções e outros agentes agressores externos, é através da pele que podemos perceber o frio ou calor, distinguir diferentes texturas e consistências, sentir dor, manifestar carinho ao toque."

sexta-feira, 10 de maio de 2013

aos estranhos e ao acaso

Admiro estranhos que, em meio à correnteza da vida, se viram e mudam de rumo.
Que carregam no olhar a inquietude de quem muda de ideia;
Que procura e não sabe o que procura.
Que se senta, abre um livro e não lê, talvez porque já haja bastante metafísica em não pensar em nada.
Que olham para a frente e não veem nada, e com olhar vago e perdido, continuam a vagar.
Ou, ainda, me esqueço observando aqueles que esquecem (a si mesmos) lendo em pé, em meio a espera.
Que caminham por entre os seres do mundo com uma curiosidade quase ingênua,
E que mesmo assim carregam no olhar a honestidade de quem já sabe o que é sofrer.
Estranho como estranhos nunca deixam de ser estranhos
Não sei dizer como a vida nos atrai e por um triz quase aproxima.
Confesso que a vida seria mais dura se não fosse a glória do acaso.
Confesso que, por vezes, sigo estranhos na rua
Apenas para sentir o prazer de descobrir em qual ponto da avenida nossos caminhos vão se perder.
E às vezes, com sorte, nós ainda conseguimos trocar um olhar e um sorriso (sinceros, mesmo que tímidos) de quem sabe que viver não é facil

sigo

sigo
não sei mais o que
na vida só resta seguir
é preciso seguir
não se sabe pra onde
não se sabe porquê
com pressa, seguimos
atravessamos a faixa de pedestres
corremos pra não perder o onibus
corremos pra não perder o elevador
subimos escada
descemos escada
e quando, enfim, chegamos
já nem nos damos conta
só o que se quer é seguir
só o que se quer é fugir

seguir os pés
fugir à solidão
seguir as mãos
fugir ao toque
seguir os olhos
fugir ao olhar
seguir os ombros
fugir aos abraços
seguir as bocas
fugir às palavras
seguir o sexo
fugir ao envolvimento
seguir aos desencontros
fugir dos encontros
seguir em si mesmo
fugir de qualquer teoria que prove que não posso viver para mim mesmo.

terça-feira, 30 de abril de 2013

enfim amar

Se amo, porque então sempre essa codição?
Quero amar sem esperar pelo amor
Quero ter a coragem de dizer "eu te amo" e receber silêncio como resposta
Quero sentir um amor tão puro que independa do que sente o outro
O outro que é sempre o outro

"Pois que eu sou eu e você é apenas você"

Amar o amor em si
Esse é o amor que não se explica, em pureza
Está em paz consigo e está em paz com o outro
É um amor que nasce como uma flor: é de dentro pra fora.

E então posso me permitir não entender
Pois eu sempre olhei para as coisas do mundo sem as ver, buscando nelas alguma compreensão.

Olho para o mar e não me pergunto porque é feito de água e tem gosto de sal
Nem porque o chamamos de "o mar" ou "la mer"
Nada disso importará
Nada muda a coisa em si.

Olho o céu e não me pergunto porque além dele existe um infinito inalcançável de um azul impossível.
Posso, enfim, olhar o verde das árvores e apenas amar o seu estado à luz do sol.
Nem mesmo quero descobrir pra onde seguem os carros pelas estradas solitárias e apressadas.
Ou ainda, quais são as habilidades necessárias àquele limpador de janelas que se sustentava corajosamente por um fio no alto dos prédios.

Pois, enfim, me basta amar a todas essas coisas
Amá-las por apenas serem.
Amar sem entender o que sinto
ao sabor de cada instante,
ao sabor de cada surpresa
Amar o que sente meu irmão, mesmo que eu nunca o possa saber (verdadeiramente) como se sente.
Amar este ser que sou
Amar este ser que você é
Sem nnunca os conhecer verdadeiramente
Porque "o verdadeiramente" nunca existiu.

Apenas isto.
Este ínfimo sentir é imenso para mim.

sexta-feira, 19 de abril de 2013

momentos são momentos

ao mesmo tempo que sei de minha insuficiência, continuo tentando
nunca vou conseguir dizer o que sinto
porque quando verbalizo já é uma terceira coisa
tenho em mim todos os sentimentos do mundo
tudo por mim passa
nada em mim fica
tudo é possível
só eu impossível
as horas passam
os dias passam
os meses passam
pessoas passam
tudo cresce
tudo morre
tudo se

e
s
vai
e
s
corre

momento de olhar de dentro pra fora
de descobrir um novo mundo
de descobrir que posso ser tudo que quiser
e nada mais importa
só o que ainda não sei

diz que o esquecimento é uma falha de comunicação consigo mesmo.

sexta-feira, 12 de abril de 2013

peso-leve do mundo ou leve o peso mundo

Me esvazio de quereres
tudo pode ser
nada pode ser
tudo é nada
que não se controla
e por isso pode ser o que for
o que pode ser, não importa
o que não for, não importa
tudo é nada
nada pra fazer sentido.

Hoje acordei sob sol brando
o olhar em branco
nada precisa ser
tudo já é.

Ando pela cidade que se contrói a minha volta
que um dia me engolirá
percebo os abismos que nos separam
uma rede de quereres, de coisas e ausências nos une quase por um fio
vejo esse outro que é apenas mais um continente
uma imensa ilha à deriva na multidão
nos ouvimos, nos olhamos, para quê?

quarta-feira, 3 de abril de 2013

a joão e ao amor

que tanto amo em joão?

não, não é a cor de seus olhos, nem como o céu reflete neles
também não é o modo sem preocupação com que movimenta seu corpo pelos lugares
não, não é a barba por fazer, também não é a forma como arruma o cabelo bagunçado
nem o tom ou a textura de sua pele (que poderia ser qualquer uma e sendo qualquer uma, eu ainda a amo por ser qualquer uma). talvez seja a maneira como olha sempre a frente o horizonte que é sempre agora, sim, talvez seja isso. não, mas acho que ainda não é. a maneira como acredita nesse horizonte sem medos. a maneira como olha para as cores das coisas e instantaneamente as cores das coisas lhe olham. esse amor que preservo por joão talvez seja o que tanto amo em joão. porque sou desses seres que estendem sentimentos por onde passa, que sentem à última gota, só pra sentir. que escrevem poema e acabam em prosa. e por tanto amar joão não ouso descobrir que tanto amo em joão.

"Amar a nossa falta mesma de amor, e na segura nossa
amar a água implícita, e o beijo tácito e a sede infinita." (Drummond)

sexta-feira, 22 de março de 2013

algum-remédio-anti-monotonia

depois de uma madrugada mal dormida, quase teve raiva do sol radiante que se impunha em sua janela. não queria saber de sol, um dia chuvoso ou mesmo nebuloso já estaria um pouco mais de acordo com seu estado de espírito. mais um dia recheado de filosofias mal definidas, de conclusões-não-concluídas, de desejos abortados... a xicrinha cubista posta à sua frente, guardando as cinzas do que há minutos atrás foi seu breve preenchimento de vazio, talvez lhe compreendesse.

"Aqui é dor, aqui é amor, aqui é amor e dor:
onde um homem projeta seu perfil e pergunta atõnito:
em que direção vai?" (Adélia Prado: O coração disparado)

quarta-feira, 20 de março de 2013

mal-estar

Vivendo dias frios
vivendo dias frágeis
corda-bambeados.

Tempos de solidão:
é ousado fazer amigos,
é ousado se preocupar com estranhos,
é ousado demonstrar afeto por quem já não faz mais parte da sua vida.

O medo é natural da pele.

domingo, 17 de março de 2013

medos metropolitanos embalados numa madrugada chuvosa

Domingo a noite e a preguiça de dormir que consome... dia de produção (produção?): permaneço incomunicável no casulo, preparando a partida como se preparasse um grande tapete voador. Fome. Vazio. Cansaço. 02:00AM e eu não quero dormir, corpo pede descanso, mas sei que o sono é apenas uma droga que me ilude trazendo sonhos distantes que pela manhã quando desperto não fazem qualquer sentido. A vida também não faz sentido, invento um sentido pra ela todos os dias. Divago observando a fumaça que se desprende do incenso. Se solta e logo em seguida se esvai pra algum canto do universo. Assim também serei eu quando me soltar. A luz amarela da rua que faz lembrar conversas sensíveis de uma noite que já parece distante. Tudo são lembranças. Histórias que vêm e vão. Momentos são momentos. Absurdos ocasionais.
Nada fica. Eu fico. "Tudo é possível /Só eu impossível", diria Drummond... A cada momento se está e é só isso (tudo) que te faz ser: estar é ser. Por que é tão difícil ser um com outro ser? Ser um com outro que não fica é mais fácil, ser um momentâneo. É difícil ser um com o mesmo alguém todos os dias porque cada dia somos um outro ser.

dor e doçura

Cansei da culpa de meus erros
Dor e doçura fazem parte da vida
Dou o meu melhor todos os dias
Preciso saber disso
Isso me basta
Assim me humanizo
Aceito minha humanidade maior: o direito de errar.

Expectativas de retorno não são necessárias.
Todo mundo espera de todo mundo
E o mundo espera de todos
Quero me despir de tudo
Ficar vazia
Nua
Será a nudez possível?
Hoje só preciso me ouvir,
O que ninguém mais poderá
É que cada um só pode ouvir a si próprio
Tentamos ouvir o outro mas o que ouvimos é a nós mesmos
Damos ao outro o que acreditamos ser o melhor
Esse melhor é o nosso melhor
Não o melhor do outro.

Talvez, aprendendo a nos ouvir mais consigamos ouvir um pouco mais do outro.
Estou novamente esperando?

segunda-feira, 11 de março de 2013

ser das coisas, coisas do ser

Amor sempre foi onda
Tirando meus pés do chão
Me atraindo com suas belezas e sons
Me traindo as pernas
Me salgando as narinas
Me afogando o peito

Hoje navego por águas tranquilas
Apenas uma leve brisa sinto
Vou sem pressa por esse imenso mar
Por muito tempo o medo da própria sombra...

Hoje de repente perde-se o medo
De ser
De dizer

Se é
Se diz

Os silêncios do outro não são mais uma vertigem
negra
que te engole
O silêncio também é
Não se sabe o que é
Não se precisa mais saber
Mas é
E será
Igualmente não se sabe o que
Também poderá não ser
(mas tudo de algum forma sempre é)

Isso apazigua minha inquietação
Meus sonhos
Meus devaneios
Minhas palavras indizíveis
Tudo é (e pode ser) em alguma parte do universo
Assim me basto.

quarta-feira, 6 de março de 2013

amor pela arte

Hoje foi mais um daqueles "grandes dias"
Mais uma daquelas "prova-ações"
Me lembro e me arrependo:
Deveria ter me mostrado mais.
Será porque ainda não acredito verdadeiramente no que sou/ no que quero ser?

Quando penso nesse amor
E na luta de todos os dias para não negá-lo
Sinto um nó na garganta
Estou cansada de nãos
O primeiro não que recebi foi de mim mesma (e isso me envergonha)
Hoje a batalha é para conquistar um sim meu e de cada pessoa que esbarro
Não é fácil, fácil seria esquecer...

Se hoje eu não tiver conseguido aquele sim de que precisava
Não ficarei triste
Continuarei seguindo
Com a certeza de que hoje, quando abri os olhos
Um sim brotou de mim
Certeza de que o dia valeu a pena por si
Os outros sims de que preciso virão
Hoje, o meu sim eu conquistei.

"Eu gosto tanto de você que até prefiro esconder, deixo assim ficar subentendido."

domingo, 3 de março de 2013

novo amor

Novo amor desponta
Me pega pela mão
Vamos passear...
Peito de terra batida
Coração que já quase virou pedra
Terra tem seu tempo de germinar

Olhos de menino me espiam
Menino, homem se descobre
Também eu venho me descobrindo mulher
Olhos que brilham cansados de outros amores
Também meus olhos se cansaram

Mas vem que ainda há tanto por ver,
tanto por vir!
Me diz que ainda somos pássaro-novo
Só nos resta voar...

poema a uma grande amiga

Eu tenho uma amiga
Ela é coragem
Ela é preocupação
Ela é urgência.

Todo dia ela acorda e se permite viver
Quantos passam pela vida e se esquecem disso?
Pois ela vive e ainda ensina a quem está em volta

Viver é doce
Viver dói

Todo dia ela reaprende a viver a solidão
Todo dia resolver coisas
Todo dia ela consegue
Todo dia o teatro a consome

Com ela é que aprendo palavras novas
E comigo ela se preocupa e diz: aproveite o dia!
Ela mesmo nem percebe o quanto me ensina
Perto dela, minha ingenuidade de menina
se transforma, se lapida
E aos poucos, bem aos poucos, me conheço mais mulher.

"Uma mulher, uma beleza, que me aconteceu..."

sexta-feira, 1 de março de 2013

sobre o direito superior

Os pais sempre estarão certos. Não importa o quanto se argumente. Sim, sou egoísta porque nunca gerei um ser. Nunca senti uma vida brotar dentro de mim. Isso faz de mim alguém que vai sempre olhar pro próprio umbigo. É inerente a todo ser humano. Quando eu não tinha consciência alguma sobre o ser ela já pensava por mim, me cuidava. Só que, infeliz condição humana, nunca saberei nem sentirei o mesmo que ti se nunca vivi tudo isso. A minha consciencia de ser é muito mais rescente se comparado com a sua, você já teve de suportar duas consciências de ser: a sua própria e a minha. Então, o que há? a exigência de algo que não se tem a capacidade de sentir. Não pode haver nunca reciprocidade de amor entre pais e filhos. Isso não deveria diminuir a validade do sentimento dos filhos. Não quer dizer que o amor que eles tenham seja menor ou que não exista. Só que vivências diferentes levam à amores diferentes. o amor dos pais é incondicional e embora eles pensem que não, é também egoísta, pois tendo consciência (mesmo que intuitiva) disso eles se sentem superiores e rejeitam quaisquer tentativas de auto-afirmação por parte dos filhos. É como se nada nunca pudesse ser feito, os filhos sempre deveriam se prostrar diante dos pais, juntamente com suas ideias e opiniões a cerca do que quer que fosse. Do contrário, serão chamados "egoístas". Egoísta por me apresentar como um ser com plena capacidade de discussão, raciocínio e argumentação. Só que isso não é possível no mundo dos pais. Nesse mundo, eles sempre terão a razão e com pleno direito (e dever) de apontar os erros de seus filhos. Tudo o que esse filho diga ou faça nunca será suficiente perto de tudo o que seus pais lhe fizeram durante toda a sua vida. Toda gratidão será non-grata. Mesmo que tenhamos sido desejados muito antes de sabermos o que significaria desejar. Nada poderá ser feito além de ouvir e concordar que sim. Todas as posturas passivo-agressivas serão justificáveis perto de tudo o que eles já fizeram por você.

"De tua poltrona, tu regias o mundo. Tua opinião era certa, qualquer outra era disparatada, extravagante, anormal. E tua autoconfiança era tão grande que tu não precisavas de maneira alguma ser consequente e mesmo assim não deixavas de ter razão. Também poderia acontecer de em algum assunto nem sequer teres opinião e, consequentemente, todas as opiniões possíveis relativas ao assunto eram, necessariamente e sem exceção, erradas." (Kafka, Carta ao pai, p.28-29)

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

via láctea

Olha, te digo que ouço estrelas e
esteja certo de que já há muito perdi o senso.

Eu, em meio a todas as dúvidas sobre a vida,
indecisões e dramas dos 20 anos
em uma noite como outra qualquer
abro uma revista qualquer
e sou informada de que a 7,5 mil anos-luz da Terra, na região nebulosa Carina, "as estrelas nascem e morrem em um violento inferno de ventos estelares e radiação ultravioleta."

Queria poder dizer a cada uma dessas estrelas
que também eu venho nascendo e morrendo a meu modo e
que mesmo com 7,5 mil anos-luz nos separando o universo é o mesmo para nós.

O universo é um verso do que, à flor da pele, sinto.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

tudo dói

vive-se numa busca por prazer
mas o que é prazer?
prazer não se sente
prazer se é
dor se é
dor e prazer são a mesma sensação
não há prazer
esse suor que transpira por meu corpo
não é prazer
meu corpo transpira porque dói
dói agudamente como o acento agudo da palavra dói...

e porque dói sou.

sem pressa vou
o instante agora nunca é o mesmo
vai
o corpo não alcança a velocidade do espírito
vai em seu tempo.

ir a outro lugar só é ir de fato quando se deixa algo pra trás
ir carregando o que não se tem mais braço pra carregar é ficar.
carrego o que posso carregar e é o que me basta por hoje
o amanhã será outro:
e.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

lágrimas e panquecas

Ela se doava todos os dias. por amor, ela dizia. por amor, ela acreditava. e então, veio a espera que paralisa... descobriu que não podia controlar tudo, que não podia entender tudo... não entendeu, por exemplo, quando lhe disseram que podia estar errada. para ela só havia uma única maneira de ver as coisas: a dela.
Para ela, a realidade não é uma questão, é um fato. Palpável. Perceptível. Indicutível. Material.
A ausência do que se esperava acontecer gerou frustração. Tentou então, desesperadamente, provocar a culpa do outro. Só que o outro, que era bem diferente dela, isentou-se. Nova frustração: viu-se incapaz de inventar culpados. Descobriu que não era dona do sentir do outro. Disfarçou sua vergonha com um tom de orgulho na voz. Fera ferida.
Ah, se tentasse ver a coisa por outro ângulo... como a vida lhe seria mais maleável! Mas para isso ela teria de descer do seu castelo de marfim. Firme. Seguro. Confortável. Acontece que, não sei se já disse, para ela isso nem chegava a ser uma questão. Logo, descer não era possível porque ela havia se esquecido de inventar essa possibilidade. Presa no alto da torre de seu egoísmo, era incapaz de vislumbrar a vastidão do universo. não entendia também o quanto isso dificultava a existência de quem vivia a seu redor. Tudo o que não se encaixava em seu projeto de perfeição era prejudicial.
Estava condenada a uma prisão sem grades.

"As possibilidades de felicidade são egoístas, meu amor..." (Cazuza)

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

andar se aprende andando

Só posso dar ao mundo o que tenho: mãos e pés.
Andar se aprende andando
O coração se reinventou
Esqueceu de me avisar
Fiquei pra trás olhando a esquina que passou
Eu que tinha certeza da resposta
Achei que podia inventar o final da minha história
Agora fiquei aqui me sentindo um pouco tola...
Como se tivesse saído sem arrumar a cama.

Estou diante da porta
Esqueci a senha
Não se pode mais entrar
Preciso inventar uma outra
Encontrar outra porta
Ou mesmo ser porta.

Sem passar agosto esperando setembro
Não podem haver amanhãs
Antes do Hoje
que é singular.

Sensação amarga de perda retardada,
perda que na verdade não se teve
porque nunca houve o que perder.

Sensação anacrônica:
Uma composição de tempos múltiplos,
Confusão de setas que apontam pra Lugar-Nenhum
Consumida por um nada.

Para emergir do Nada
É só me esquecer de ser
Sou humana e condenada à consciência
Embora saiba de alguns métodos alienantes bastante salutares,
Hoje preciso esquecer do que sei
Saber me faz tentar parecer o que não sou
Acabo virando uma tela cubista:
Um esboço grotesco de mim.

Quando se é não se tem o que mostrar
pois já não se tem também o que esconder
Sem vergonha nem orgulho do que foi
Basta seguir
A esperança não pode ser adiada
A esperança no Hoje é só fé
Basta a Fé em ser o que se é

E então
Cada instante vira uma invenção, uma improvisação, uma percepção
Me basto.



"Continuamente vemos novidades,
Diferentes em tudo da esperança (...)"
Camões)

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

respeitar(-se)

Sa(ir)
Voltar
Sa(ir)
Voltar
Sa(ir)
Voltar

ir

amar

deixar

O movimento de (sa)ída não pode ser feito
sem o da volta
Pois nada cresce de um dia para o outro
Sem o choque
da volta

Como voltar
s(e)m ver o que se deixou mudar?
Como voltar
s(e)m desprezar o que se deixou?

Pois que para voltar há de se ter
Liberdade
para consigo
e para com o outro:
Respeito

Respeitar(-se):
tudo o que se teve,
amar-se no outro.
Curvar-se à vida:
compreensão mútua.
Confiança pura:
presente-passado.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

eu tive um sonho

Quando o que resta é fechar os olhos
pro impossível
Descansar é esquecer
Permaneço aqui: limiar da quase-tristeza
Pois é uma tristeza que não chega a ser:
não dá tempo.

Olhos indecisos entre o nada
e o precipício
Pés: um passo à frente, dois atrás
Corpo que perambula entre ações (in)acabadas
A alma entre a calma e o desassossego.

Habito
no cheio que é vazio,
no largo que é apertado,
no aberto que é fechado,
no perto que é longe
ou
na resposta que é pergunta?

E o que não foi não é, mas gerou outro ser.
Vida:
conjunto de ações-não-agidas.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

a estrada

A única estrada que houve é a que já ficou pra trás:
o rastro dos meus pés
essa é estreita
por ela já não posso mais caminhar
e a cada segundo que passa
o vento apaga
e dela só resta memória (quando-resta)

E o que fica é só chão
o caminho ainda por traçar

Hoje sei que a confiança não nasce no horizonte mas dos pés em contato com o chão

E todos aqueles


castelos


projeções


se


e

s

va

e

m

(trans-)formações que dissolvem no vento e
no presente ganham uma formação
muito outra da que se poderia pensar ter avistado

É no minuto agora que ganho forma
E essa estrada que ainda não existe é larga
O horizonte, I M E N S O
E nele, tudo (im-)possível

Só o hoje possível:
pão-com-margarina-cotidiano

Todo dia chego no horizonte.