segunda-feira, 1 de julho de 2013

da leveza e do peso (ou o medo de viver)

Para ela era insuportável o peso. Ela era quase esmagada por seu próprio peso e pela leveza dele. Seu peso a envergonhava. Sempre o escondia (até de si mesma). Agora ia ficando fraca. Era o abismo a sugando? Queria cair, não queria mais pensar no que pensariam dela. Só queria que a deixassem em seu canto, caindo. Queria esquecer o que sentia. Não queria mais sentir o que sentia. Não queria mais ser quem era. Queria mostrar para si mesma o quanto era forte. Estava cansada de se trair, de se contradizer. Sentia vergonha de estar sendo quem era, era desonesta consigo. Não adiantava dizer que estava tudo bem, e fingir para si mesma que era leve, não era, nunca tinha sido. E agora estava prestes a se libertar de uma situação que só havia lhe trazido sofrimento. Ela havia se viciado no sofrimento, mas agora havia decidido tomar um rumo diferente. Já não queria mais pensar nos efeitos que essa sua atitude poderia causar. Queria apenas sumir. Completamente. Se enfiava em situações que não sabia como sair. Sim, iria fugir. Fugir agora não era mais sinal de fraqueza, mas sua maior franqueza. Precisava se respeitar. Se não se respeitasse, ninguém mais o faria. Ela veio se sabotando durante muito tempo. Se enganando que era tudo leve. Mas ela estava se escondendo de si mesma. Suportando um fardo que não era seu. Não tinha que ser. Não era mais. Estava cansada. Cansada de olhar no espelho e ver a fraca que era. Fraca por não ter coragem de fugir. Fraca por alimentar uma situação que detestava. Fraca por ter estado sempre lá. Pronta pra quando precisassem dela. Era usada porque se deixava usar. Ele nunca a amara. E isso era um fato. Por que era tão difícil admitir? Acontece. Não poderia mais suportar, estava caindo... E pensava se agora também não estaria se enganando. Se essa atitude não seria uma forma de se iludir. Um silêncio que no fundo gritava: “olhe, estou indo embora, me segure!” Não, se fosse deveria ir de uma vez. Retornava sempre ao mesmo ponto de partida. Mas não partia. Nunca conseguia partir. Agora precisava ir sem olhar pra trás. Ir sem deixar uma espera. Ir sem qualquer espera. Estava adiando a vida que transbordava dentro dela. Esses jogos que criava, que alimentava... isso não levaria a nada. Sabia disso. Por que continuar? Por que se enganar? Se fosse embora estaria sendo ela mesma. Estaria sendo honesta. Queria amar ainda. Queria ser amada ainda. Precisava se permitir isso. Se continuasse se prendendo estaria evitando a vida. Já não podia mais evitar a vida. No fundo sabia que se acomodava nessa eterna espera pra evitar a vida. O sofrimento que forjava para si mesma nessa espera nem se comparava ao sofrimento que estaria exposta se resolvesse viver de fato. Seria um sofrimento real. Tal qual sentira das últimas vezes que tentara viver. Quando a vida lhe ultrapassara. Quando de repente não pode mais dar conta da vida. Então se agarrou aquele sofrimento velho, esgarçado. Aquele sofrimento que nem sofria mais, só fingia sofrer. Que a iludia de estar vivendo. Era tudo uma grande mentira que inventara pra si mesma. Que inventara para se proteger. O trauma tinha sido mais fundo do que imaginara: não sofria mais pelo sofrimento em si (ele já havia se esgotado, tanto que não chorava mais), agora sofria pelo medo, pelo medo de viver.

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