quinta-feira, 13 de junho de 2013

errância e Prazer

Era o medo de não ter forças para viver: o prazer lhe amedrontava. O medo de ter medo do prazer amedronta. Ela mal havia vislumbrado o prazer. Nem sequer o havia tocado. O tocar seria demais para ela ainda. Mas imaginava sua grandeza. E o vislumbre da imagem do que poderia ser o prazer era-lhe por demais gigantesco, sentia-se pequena. No entanto, este sentimento de ser pequena não era humildade. E sua arrogância já a envergonhava: como poderia ter medo do prazer? Como poderia pensar que não era suficientemente capaz de ser um humano? Como poderia não se permitir ser um humano e errar? Errar era o que mais a humanizava. Ah, precisaria errar tanto antes de chegar perto do prazer... somente quando pudesse errar sem sofrer, sem torturar a si mesma. Só então estaria sendo humilde e boa consigo, estaria em paz com a condição humana que lhe fora incumbida. Enquanto ainda não se sentia capaz de ser um humano, estaria escondida em seu medo de viver, adiamento de ser, irmão da arrogância inconfessável. Gostava de se imaginar limpa de erros, mas descobria que precisava antes se curvar perante O Prazer, O Grande Prazer que habitava o desconhecido. O seu medo de errar, o seu medo de não estar pronta para viver, além de adiar a vida e lhe imobilizar, demonstrava o quanto ainda fugia à entrega a imensidão que era errar e enquanto fugisse não poderia se tornar um humano. Estava então se entregando agora ao desconhecido. Queria uma coragem que não podia pedir, coragem que só lhe vinha quando era. Amedrontada diante da vastidão do desconhecido e da humildade que não tinha. Estava sozinha. E a entrega ao desconhecido era o máximo de solidão que poderia se dar. Quando pudesse caminhar livre e só, com suas próprias pernas, seria então de uma certeza firme e precisa de quem não sabe aonde vai, mas vai. Estava agora enfrentando o desafio de ser forte. Cansar-se seria fácil, já havia muitos cansados. Ser forte lhe exigia uma grande coragem. Coragem de ser. E nisso, já não buscava mais nem prazer nem dor. Esperava o que lhe viesse com a surpresa de quem vive o óbvio.

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