sexta-feira, 1 de março de 2013

sobre o direito superior

Os pais sempre estarão certos. Não importa o quanto se argumente. Sim, sou egoísta porque nunca gerei um ser. Nunca senti uma vida brotar dentro de mim. Isso faz de mim alguém que vai sempre olhar pro próprio umbigo. É inerente a todo ser humano. Quando eu não tinha consciência alguma sobre o ser ela já pensava por mim, me cuidava. Só que, infeliz condição humana, nunca saberei nem sentirei o mesmo que ti se nunca vivi tudo isso. A minha consciencia de ser é muito mais rescente se comparado com a sua, você já teve de suportar duas consciências de ser: a sua própria e a minha. Então, o que há? a exigência de algo que não se tem a capacidade de sentir. Não pode haver nunca reciprocidade de amor entre pais e filhos. Isso não deveria diminuir a validade do sentimento dos filhos. Não quer dizer que o amor que eles tenham seja menor ou que não exista. Só que vivências diferentes levam à amores diferentes. o amor dos pais é incondicional e embora eles pensem que não, é também egoísta, pois tendo consciência (mesmo que intuitiva) disso eles se sentem superiores e rejeitam quaisquer tentativas de auto-afirmação por parte dos filhos. É como se nada nunca pudesse ser feito, os filhos sempre deveriam se prostrar diante dos pais, juntamente com suas ideias e opiniões a cerca do que quer que fosse. Do contrário, serão chamados "egoístas". Egoísta por me apresentar como um ser com plena capacidade de discussão, raciocínio e argumentação. Só que isso não é possível no mundo dos pais. Nesse mundo, eles sempre terão a razão e com pleno direito (e dever) de apontar os erros de seus filhos. Tudo o que esse filho diga ou faça nunca será suficiente perto de tudo o que seus pais lhe fizeram durante toda a sua vida. Toda gratidão será non-grata. Mesmo que tenhamos sido desejados muito antes de sabermos o que significaria desejar. Nada poderá ser feito além de ouvir e concordar que sim. Todas as posturas passivo-agressivas serão justificáveis perto de tudo o que eles já fizeram por você.

"De tua poltrona, tu regias o mundo. Tua opinião era certa, qualquer outra era disparatada, extravagante, anormal. E tua autoconfiança era tão grande que tu não precisavas de maneira alguma ser consequente e mesmo assim não deixavas de ter razão. Também poderia acontecer de em algum assunto nem sequer teres opinião e, consequentemente, todas as opiniões possíveis relativas ao assunto eram, necessariamente e sem exceção, erradas." (Kafka, Carta ao pai, p.28-29)

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