E então a mulher percebia que já não era preciso temer estar só. Já não precisava ter alguém consigo que lhe protegesse. Não, ela poderia muito bem andar pelas ruas muito só. Tudo o que viesse a lhe acontecer não era porque estivesse só, mas porque lhe devia acontecer. E então, podia caminhar assim a noite muito livre e dona de si. Sim, agora se dizia dona de si. Porque não precisava de mais ninguém para ser dono dela mesma, e justo agora, percebia que era muito dona de suas pernas e que, estas a poderia levar para onde quisesse. Porque agora se dizia uma mulher crescida, sem namorado e muito bem obrigado. Nunca antes havia se permitido essas pretensões. Pois que agora era ousada. É, se dizia dona de si e ainda por cima ousada. Enfim podia ser franca consigo mesma. Olhava os casais na rua que se aparavam e se perguntava se estes já haviam passado por algo semelhante ao que ela passava agora. Será que já haviam se sentido completamente sozinhos e seguros de si na mundo? Será que por já terem vivido isso agora enfim poderiam se dar ao luxo de caminhar assim pela rua de mãos dadas. Por opção. Preferia acreditar que sim, que estas pessoas que via passarem por si agora estavam acompanhadas por opção. Porque já haviam estado muito consigo mesmas e não que não gostassem de sua própria companhia, mas que haviam reconhecido no outro um meio de conhecer mais sobre a vida e sobre as coisas, não por necessidade. Já havia ficado em companhia de outros seres humanos por necessidade e sabia que havia hoje em dia muitos que ainda faziam isso. Sabe aquela sensação de ser desonesto consigo mesmo? Pois é, ela já tinha sentido isso antes e tinha decidido que não, agora era um momento de se descobrir a si mesma. E sabe que há muito havia previsto que esse momento um dia havia de lhe chegar? Pois que só agora percebia a riqueza que se dispunha diante dela. Ela e a companhia dela mesma. Nossa, isso seria um deserto infinito de existências. E só agora sentia que podia valorizar isso de fato. Pensava nas distancias que atravessava consigo mesma, às vezes com alguma companhia, mas em geral, muito sozinha. Enquanto isso observava as crianças que tarde da noite brincavam na rua e que não precisavam se preocupar em como voltariam pra casa porque provavelmente moravam ali do lado. E amou aquelas crianças. Amou a sorte delas. Não com inveja, não. Pois já havia aprendido a respeitar suas próprias distancias. E amá-las também. Agora amava as distancias que ainda havia de atravessar. Porque estas lhe significavam conquistas e desafios que ultrapassava. Que havia de atravessar. Sempre que ultrapassava um novo desafio significava que estava expandindo em seu próprio espaço. Que estava crescendo para si mesma e para o mundo. E assim ia aprendendo a amar mais o mundo e as coisas.
(Deleuze, "Ilhas Desertas")
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ResponderExcluirGuilherme Marisani =)