terça-feira, 9 de setembro de 2014

concha

ela pôs as mãos em forma de concha por sobre meus ouvidos e pediu que eu prestasse atenção a minha respiração, respirando pelo nariz e soltando o ar sempre pela boca com um som. nesse instante me torno uma concha. começo a reconhecer as dimensões de um corpo-carapaça. a imagem toda rastejante e molenga que fiz de mim mesma antes, aos poucos vai se calcificando. lentamente desacelero a respiração e inspiro e expiro o ar que vibra em ondas sonoras pelo meu corpo. atenta aos ruídos internos, sou como a concha que no oceano das sensações passadas guarda todos os sons que é capaz de captar. os sons internos que agora percebo são ressonâncias de histórias que o oceano lá fora me trouxe.

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

sonâmbula

Passei o dia como sonâmbula
Noite salgada mal dormida de lágrimas doloridas
Sou só eu que sinto as consequências de ser o que sou
O dia passou num entre sonho de caminhadas
Cansada de meus desejos, abandono-os na poeira do sono
Quando acordo já me esqueci um pouco mais e aos poucos tudo vai virando poeira
Vou esquecendo de tudo que pequenamente me magoa
Mas a poeira ainda fica pelos cantos...
Amanhã sei que vou acordar com gosto de sentimento velho na boca
Pão dormido
Bolo mofado
Tudo que vira pó e e esconde pelos cantos da casa.
Sentimento velho, mal digerido é a pior coisa que tem
Mas o silêncio do sono serve pra limpar
Silêncio frio e branco que me envolve
Um dia pra esquecer e varrer a casa.

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

reconciliação com o feminino ou o renascer da terra

Há terra dentro de mim
sou fruto da terra de que brotei
Em mim, cada reentrância, cada raiz é uma entranha de meu ventre
Que dilata, distende, contrai
E essa dor fina que me brota é pura e sagrada
Porque assim também a terra que piso é sagrada
De repente o medo perde o sentido
O medo que sinto tão grande de ser
Como pode ter medo de ser o que faz parte de você?
Sou terra dura esfarelada que respira, sou da mesma cor que essa terra: vermelha.
Minha carne tem gosto de terra e agora ela se revolve toda me deslocando
Sinto agora a dor mais sincera de olhar para o que sou feita e não temer, não duvidar
Agora isso já não é mais possível
Só o que é, sentir o que é:
Sangue grosso e quente escorrendo de dentro de minhas raízes
Raízes que percorrem minhas veias, pulsando-as com força
Ao mesmo tempo que a dor me traz uma paz branda e serena
É na contração que o feminino se expande.

Meu útero é uma batata doce se descascando.





sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

tentativas de amor

Somos comuns
Amamos e desamamos como todo mundo
Não vê?
Que têm essas palavras de diferente das que eu deixo pra você?

Estive pensando em amores passados, presentes e futuros
Amantes que estão por aí
Sem saber o que fazer
Só querem amar enquanto resta tempo, vida e amor
Por isso todas às cartas de amor serão sempre ridículas
Não haverá nuca o que represente amor
Só o que há são tentativas de amor:
Falar amor
Ouvir amor
Sentir amor
E é tão imenso nunca conseguir
Ou então, por breves segundos, vislumbrar amor

Já vejo por aqui os estilhaços que amor deixou
Por onde entrou, algumas palavras, fragmentos de frases, poemas, canções...
São vestígios de algum momento doce, de simples contentação
Ou um abraço e olhar sinceros

Sem ousar pedir mais nada
Melhor deixar sem saber
O simples gesto de continuar tentando nos purifica: somos inocentes como crianças
É isso que me comove.

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

o mais profundo é a pele

é que além disso, não sabia porque precisava arrancar os pelos que novamente insistiam em crescer. como é isso de dizer exatamente o que se sente? seria possível? como fazer as palavras expressarem o que sentia no exato momento em que lia a própria pele? procurava pelos menores detalhes, pelas mínimas marcas que a faziam tão diferente . olhava. procurava. o menor dos detalhes a perdia horas no banheiro... as marcas dos pelos arrancados e dos que lhe iam nascendo por cima iam ficando em sua pele. a pele era seu único mapa. como ser encontrável para si? como se encontrar se vestia o único mapa que dispunha? tanto se olhava e menos se via. todo esse desconforto reverberava além mapa: suas roupas também lhe iam mal, como se nunca tivessem sido feitas pra ela. usava-as por sobre o mapa. tampava-se de si mesma e dos outros. e se a encontrassem? e se descobrissem nela uma rota de acesso, um caminho possível? se nem ela própria teria ousado ainda se percorrer... ia ficando cada vez mais difícil se mostrar e sabia que chegaria uma hora em que não teria escolha. quando se dava era sempre no escuro. entregaria-se como bem a quisessem, mas no fim sempre se escondia. se escondia no escuro, num canto com um gemido baixo de quase-satisfação. tateava-se.

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

o que passou passou

Me encho de passado
Me esvazio das vontades
Perco as forças e me deixo levar
Se hoje é hoje como posso esquecer o que passou?
Eu sei que estamos sempre indo
Eu sei, nada é estanque, tudo se renova, mas será?
Até que ponto as coisas deixam de ser?
É esse resíduo que nunca vou conseguir apagar
Olho pra trás, viro estátua de sal
Não posso olhar pra trás e seguir, se olho pra trás instantaneamente me apago no presente
Deixo a casa, vou correndo, vou embora, quero ar, mas eu não posso fugir de mim mesma.
E seu eu tivesse amnésia?
E se eu simplesmente esquecesse quem eu sou, quem você é, quem todo mundo é... poderia começar de novo?

Quando o passado vem em onda, lembro de quem fui, lembro de todas as situações, todas as tristezas, todas as alegrias... todas?
Até que ponto posso confiar nas memórias? memória é memória e o que foi não é, mas e quando o que é sempre é depois?
Nunca se poderá saber de nada.

Mergulho em mim
Mergulho no que foi e não sei se volto

Bom mesmo é sair, tomar um ar e esquecer
Esquecer é o que alivia
Esquecer pra seguir.

domingo, 15 de setembro de 2013

o que já foi

de novo e de novo e de novo
nada é real, tudo impressão, marca de um que já foi
então o que é?
me diz meu amor, porque não sou capaz de perceber o que é?
se estou sempre atrasada
sempre no que já foi

será que tem de ser tudo sempre tão perfeito?
se já sabemos que o perfeito não existe então por que ainda o esperamos?
se todas as cartas de amor são ridículas, me diz, por que continuamos a escrevê-las?
esperando os acontecimentos de sempre
por que insistindo?

eu, pra quem o agora é sempre depois
eu que vivo de memória