quinta-feira, 30 de maio de 2013

ilha deserta

E então a mulher percebia que já não era preciso temer estar só. Já não precisava ter alguém consigo que lhe protegesse. Não, ela poderia muito bem andar pelas ruas muito só. Tudo o que viesse a lhe acontecer não era porque estivesse só, mas porque lhe devia acontecer. E então, podia caminhar assim a noite muito livre e dona de si. Sim, agora se dizia dona de si. Porque não precisava de mais ninguém para ser dono dela mesma, e justo agora, percebia que era muito dona de suas pernas e que, estas a poderia levar para onde quisesse. Porque agora se dizia uma mulher crescida, sem namorado e muito bem obrigado. Nunca antes havia se permitido essas pretensões. Pois que agora era ousada. É, se dizia dona de si e ainda por cima ousada. Enfim podia ser franca consigo mesma. Olhava os casais na rua que se aparavam e se perguntava se estes já haviam passado por algo semelhante ao que ela passava agora. Será que já haviam se sentido completamente sozinhos e seguros de si na mundo? Será que por já terem vivido isso agora enfim poderiam se dar ao luxo de caminhar assim pela rua de mãos dadas. Por opção. Preferia acreditar que sim, que estas pessoas que via passarem por si agora estavam acompanhadas por opção. Porque já haviam estado muito consigo mesmas e não que não gostassem de sua própria companhia, mas que haviam reconhecido no outro um meio de conhecer mais sobre a vida e sobre as coisas, não por necessidade. Já havia ficado em companhia de outros seres humanos por necessidade e sabia que havia hoje em dia muitos que ainda faziam isso. Sabe aquela sensação de ser desonesto consigo mesmo? Pois é, ela já tinha sentido isso antes e tinha decidido que não, agora era um momento de se descobrir a si mesma. E sabe que há muito havia previsto que esse momento um dia havia de lhe chegar? Pois que só agora percebia a riqueza que se dispunha diante dela. Ela e a companhia dela mesma. Nossa, isso seria um deserto infinito de existências. E só agora sentia que podia valorizar isso de fato. Pensava nas distancias que atravessava consigo mesma, às vezes com alguma companhia, mas em geral, muito sozinha. Enquanto isso observava as crianças que tarde da noite brincavam na rua e que não precisavam se preocupar em como voltariam pra casa porque provavelmente moravam ali do lado. E amou aquelas crianças. Amou a sorte delas. Não com inveja, não. Pois já havia aprendido a respeitar suas próprias distancias. E amá-las também. Agora amava as distancias que ainda havia de atravessar. Porque estas lhe significavam conquistas e desafios que ultrapassava. Que havia de atravessar. Sempre que ultrapassava um novo desafio significava que estava expandindo em seu próprio espaço. Que estava crescendo para si mesma e para o mundo. E assim ia aprendendo a amar mais o mundo e as coisas.



(Deleuze, "Ilhas Desertas")

sexta-feira, 24 de maio de 2013

vida em morte ou maio

sim, nunca há testemunhas
e assim maio me avança
me atravessa
me rasga
me despedaça
antes que eu me lembre de quem eu era
já não me lembro mais
me ultrapasso no agora
no passo que se faz firme
porque assim deve ser
nas olheiras que me afundam e me fundam no meu tempo
estamos expostos à vida o tempo inteiro e não nos damos conta
só não percebemos porque nos adaptamos num semi-viver
quando se vive de verdade se morre ao mesmo
é só quando morremos que estamos vivos
eu estava lá toda aberta e a vida sangrando em volta
tudo era carne-viva e morta
e depois então a paz
paz de se compreender
de se abraçar e dizer: "já vai passar... não é nada"
quando somos capazes de compreender a nós mesmos não há a necessidade de que ninguém mais o faça.
estou em mim mesma.

"Le rouge et le naît des tortures sont les fleurs du mal." (noir désir)

quando for capaz de me respeitar e de amar meu rato
só então serei digna de amar o mundo.



"Como posso amar a grandeza do mundo se não posso amar o tamanho de minha natureza?" (c. lispector)

sábado, 18 de maio de 2013

confiar

confiar no que se é
é o que é
agora é
não perguntar mais por onde vai a estrada
não esperar mais por aquela madrugada
a confiança pura não está na esperança que espera acontecimentos
a vida é sempre um acontecimento
todo dia é
basta ser e confiar no que se é
quando enfim posso olhar a folha em branco sem me preocupar em preencher todos os espaços
cada espaço será também preenchido pelo não-preenchimento.
quando enfim posso ser honesta comigo e assim com os outros.
nem sempre será preciso dizer o que se pensa
silenciar será dizer muito mais
silencio porque confio
a existência não precisará ser preenchida por palavras e ações
porque uma folha com um ponto negro no centro não é apenas um grande vazio com um ponto negro no centro,
porque esse grande vazio também é.
tudo é.
ainda bem.


"O que é Deus estava mais no barulho neutro das folhas ao vento que na minha prece humana.Então vê, meu amor, a verdade não pode ser má.A verdade é o que é.Eu estava habituada somente a transcender.Esperança pra mim era adiamento. Eu nunca havia deixado minha alma livre.E descobri que não é necessário sequer ter esperança.Porque as coisas são o que são.Basta saber isso."

domingo, 12 de maio de 2013

ensaio sobre a pele

o que eu sinto você não pode saber, ninguém sente como ninguém. será que o tom de minhas palavras lhe fere? me diz, o que adianta querer que o outro sinta e se aflija como você? ninguém sente como ninguém. as peles são diferentes. as peles se tocam, mas nunca se sentem. as peles mal sentem a si mesmas. pele áspera. pele silêncio. pele emaranhado. pele camada. pele profundidade. pele textura. pele densidade. pele encrustada. pele disfarce. pele proteção. pele roçar. pele engasgar. pele sexual. pele rasgada. pele dentro da pele. pele membrana. pele prisão. pele entrada. pele saída. pele porcelana. epiderme. derme. hipoderme. pele é carne.

a dor que sente a nossa carne é a dor que apenas a nossa carne sente.
quando me ouve não é a mim que tua carne ouve, é a toda memória, toda marca que nela habita.

"A pele é o maior órgão de todo o corpo humano e graças a ela nos relacionamos com o meio ambiente. Além do fato dela desempenhar papel de vital importância, por ser uma barreira contra infecções e outros agentes agressores externos, é através da pele que podemos perceber o frio ou calor, distinguir diferentes texturas e consistências, sentir dor, manifestar carinho ao toque."

sexta-feira, 10 de maio de 2013

aos estranhos e ao acaso

Admiro estranhos que, em meio à correnteza da vida, se viram e mudam de rumo.
Que carregam no olhar a inquietude de quem muda de ideia;
Que procura e não sabe o que procura.
Que se senta, abre um livro e não lê, talvez porque já haja bastante metafísica em não pensar em nada.
Que olham para a frente e não veem nada, e com olhar vago e perdido, continuam a vagar.
Ou, ainda, me esqueço observando aqueles que esquecem (a si mesmos) lendo em pé, em meio a espera.
Que caminham por entre os seres do mundo com uma curiosidade quase ingênua,
E que mesmo assim carregam no olhar a honestidade de quem já sabe o que é sofrer.
Estranho como estranhos nunca deixam de ser estranhos
Não sei dizer como a vida nos atrai e por um triz quase aproxima.
Confesso que a vida seria mais dura se não fosse a glória do acaso.
Confesso que, por vezes, sigo estranhos na rua
Apenas para sentir o prazer de descobrir em qual ponto da avenida nossos caminhos vão se perder.
E às vezes, com sorte, nós ainda conseguimos trocar um olhar e um sorriso (sinceros, mesmo que tímidos) de quem sabe que viver não é facil

sigo

sigo
não sei mais o que
na vida só resta seguir
é preciso seguir
não se sabe pra onde
não se sabe porquê
com pressa, seguimos
atravessamos a faixa de pedestres
corremos pra não perder o onibus
corremos pra não perder o elevador
subimos escada
descemos escada
e quando, enfim, chegamos
já nem nos damos conta
só o que se quer é seguir
só o que se quer é fugir

seguir os pés
fugir à solidão
seguir as mãos
fugir ao toque
seguir os olhos
fugir ao olhar
seguir os ombros
fugir aos abraços
seguir as bocas
fugir às palavras
seguir o sexo
fugir ao envolvimento
seguir aos desencontros
fugir dos encontros
seguir em si mesmo
fugir de qualquer teoria que prove que não posso viver para mim mesmo.