sexta-feira, 22 de março de 2013

algum-remédio-anti-monotonia

depois de uma madrugada mal dormida, quase teve raiva do sol radiante que se impunha em sua janela. não queria saber de sol, um dia chuvoso ou mesmo nebuloso já estaria um pouco mais de acordo com seu estado de espírito. mais um dia recheado de filosofias mal definidas, de conclusões-não-concluídas, de desejos abortados... a xicrinha cubista posta à sua frente, guardando as cinzas do que há minutos atrás foi seu breve preenchimento de vazio, talvez lhe compreendesse.

"Aqui é dor, aqui é amor, aqui é amor e dor:
onde um homem projeta seu perfil e pergunta atõnito:
em que direção vai?" (Adélia Prado: O coração disparado)

quarta-feira, 20 de março de 2013

mal-estar

Vivendo dias frios
vivendo dias frágeis
corda-bambeados.

Tempos de solidão:
é ousado fazer amigos,
é ousado se preocupar com estranhos,
é ousado demonstrar afeto por quem já não faz mais parte da sua vida.

O medo é natural da pele.

domingo, 17 de março de 2013

medos metropolitanos embalados numa madrugada chuvosa

Domingo a noite e a preguiça de dormir que consome... dia de produção (produção?): permaneço incomunicável no casulo, preparando a partida como se preparasse um grande tapete voador. Fome. Vazio. Cansaço. 02:00AM e eu não quero dormir, corpo pede descanso, mas sei que o sono é apenas uma droga que me ilude trazendo sonhos distantes que pela manhã quando desperto não fazem qualquer sentido. A vida também não faz sentido, invento um sentido pra ela todos os dias. Divago observando a fumaça que se desprende do incenso. Se solta e logo em seguida se esvai pra algum canto do universo. Assim também serei eu quando me soltar. A luz amarela da rua que faz lembrar conversas sensíveis de uma noite que já parece distante. Tudo são lembranças. Histórias que vêm e vão. Momentos são momentos. Absurdos ocasionais.
Nada fica. Eu fico. "Tudo é possível /Só eu impossível", diria Drummond... A cada momento se está e é só isso (tudo) que te faz ser: estar é ser. Por que é tão difícil ser um com outro ser? Ser um com outro que não fica é mais fácil, ser um momentâneo. É difícil ser um com o mesmo alguém todos os dias porque cada dia somos um outro ser.

dor e doçura

Cansei da culpa de meus erros
Dor e doçura fazem parte da vida
Dou o meu melhor todos os dias
Preciso saber disso
Isso me basta
Assim me humanizo
Aceito minha humanidade maior: o direito de errar.

Expectativas de retorno não são necessárias.
Todo mundo espera de todo mundo
E o mundo espera de todos
Quero me despir de tudo
Ficar vazia
Nua
Será a nudez possível?
Hoje só preciso me ouvir,
O que ninguém mais poderá
É que cada um só pode ouvir a si próprio
Tentamos ouvir o outro mas o que ouvimos é a nós mesmos
Damos ao outro o que acreditamos ser o melhor
Esse melhor é o nosso melhor
Não o melhor do outro.

Talvez, aprendendo a nos ouvir mais consigamos ouvir um pouco mais do outro.
Estou novamente esperando?

segunda-feira, 11 de março de 2013

ser das coisas, coisas do ser

Amor sempre foi onda
Tirando meus pés do chão
Me atraindo com suas belezas e sons
Me traindo as pernas
Me salgando as narinas
Me afogando o peito

Hoje navego por águas tranquilas
Apenas uma leve brisa sinto
Vou sem pressa por esse imenso mar
Por muito tempo o medo da própria sombra...

Hoje de repente perde-se o medo
De ser
De dizer

Se é
Se diz

Os silêncios do outro não são mais uma vertigem
negra
que te engole
O silêncio também é
Não se sabe o que é
Não se precisa mais saber
Mas é
E será
Igualmente não se sabe o que
Também poderá não ser
(mas tudo de algum forma sempre é)

Isso apazigua minha inquietação
Meus sonhos
Meus devaneios
Minhas palavras indizíveis
Tudo é (e pode ser) em alguma parte do universo
Assim me basto.

quarta-feira, 6 de março de 2013

amor pela arte

Hoje foi mais um daqueles "grandes dias"
Mais uma daquelas "prova-ações"
Me lembro e me arrependo:
Deveria ter me mostrado mais.
Será porque ainda não acredito verdadeiramente no que sou/ no que quero ser?

Quando penso nesse amor
E na luta de todos os dias para não negá-lo
Sinto um nó na garganta
Estou cansada de nãos
O primeiro não que recebi foi de mim mesma (e isso me envergonha)
Hoje a batalha é para conquistar um sim meu e de cada pessoa que esbarro
Não é fácil, fácil seria esquecer...

Se hoje eu não tiver conseguido aquele sim de que precisava
Não ficarei triste
Continuarei seguindo
Com a certeza de que hoje, quando abri os olhos
Um sim brotou de mim
Certeza de que o dia valeu a pena por si
Os outros sims de que preciso virão
Hoje, o meu sim eu conquistei.

"Eu gosto tanto de você que até prefiro esconder, deixo assim ficar subentendido."

domingo, 3 de março de 2013

novo amor

Novo amor desponta
Me pega pela mão
Vamos passear...
Peito de terra batida
Coração que já quase virou pedra
Terra tem seu tempo de germinar

Olhos de menino me espiam
Menino, homem se descobre
Também eu venho me descobrindo mulher
Olhos que brilham cansados de outros amores
Também meus olhos se cansaram

Mas vem que ainda há tanto por ver,
tanto por vir!
Me diz que ainda somos pássaro-novo
Só nos resta voar...

poema a uma grande amiga

Eu tenho uma amiga
Ela é coragem
Ela é preocupação
Ela é urgência.

Todo dia ela acorda e se permite viver
Quantos passam pela vida e se esquecem disso?
Pois ela vive e ainda ensina a quem está em volta

Viver é doce
Viver dói

Todo dia ela reaprende a viver a solidão
Todo dia resolver coisas
Todo dia ela consegue
Todo dia o teatro a consome

Com ela é que aprendo palavras novas
E comigo ela se preocupa e diz: aproveite o dia!
Ela mesmo nem percebe o quanto me ensina
Perto dela, minha ingenuidade de menina
se transforma, se lapida
E aos poucos, bem aos poucos, me conheço mais mulher.

"Uma mulher, uma beleza, que me aconteceu..."

sexta-feira, 1 de março de 2013

sobre o direito superior

Os pais sempre estarão certos. Não importa o quanto se argumente. Sim, sou egoísta porque nunca gerei um ser. Nunca senti uma vida brotar dentro de mim. Isso faz de mim alguém que vai sempre olhar pro próprio umbigo. É inerente a todo ser humano. Quando eu não tinha consciência alguma sobre o ser ela já pensava por mim, me cuidava. Só que, infeliz condição humana, nunca saberei nem sentirei o mesmo que ti se nunca vivi tudo isso. A minha consciencia de ser é muito mais rescente se comparado com a sua, você já teve de suportar duas consciências de ser: a sua própria e a minha. Então, o que há? a exigência de algo que não se tem a capacidade de sentir. Não pode haver nunca reciprocidade de amor entre pais e filhos. Isso não deveria diminuir a validade do sentimento dos filhos. Não quer dizer que o amor que eles tenham seja menor ou que não exista. Só que vivências diferentes levam à amores diferentes. o amor dos pais é incondicional e embora eles pensem que não, é também egoísta, pois tendo consciência (mesmo que intuitiva) disso eles se sentem superiores e rejeitam quaisquer tentativas de auto-afirmação por parte dos filhos. É como se nada nunca pudesse ser feito, os filhos sempre deveriam se prostrar diante dos pais, juntamente com suas ideias e opiniões a cerca do que quer que fosse. Do contrário, serão chamados "egoístas". Egoísta por me apresentar como um ser com plena capacidade de discussão, raciocínio e argumentação. Só que isso não é possível no mundo dos pais. Nesse mundo, eles sempre terão a razão e com pleno direito (e dever) de apontar os erros de seus filhos. Tudo o que esse filho diga ou faça nunca será suficiente perto de tudo o que seus pais lhe fizeram durante toda a sua vida. Toda gratidão será non-grata. Mesmo que tenhamos sido desejados muito antes de sabermos o que significaria desejar. Nada poderá ser feito além de ouvir e concordar que sim. Todas as posturas passivo-agressivas serão justificáveis perto de tudo o que eles já fizeram por você.

"De tua poltrona, tu regias o mundo. Tua opinião era certa, qualquer outra era disparatada, extravagante, anormal. E tua autoconfiança era tão grande que tu não precisavas de maneira alguma ser consequente e mesmo assim não deixavas de ter razão. Também poderia acontecer de em algum assunto nem sequer teres opinião e, consequentemente, todas as opiniões possíveis relativas ao assunto eram, necessariamente e sem exceção, erradas." (Kafka, Carta ao pai, p.28-29)