quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

andar se aprende andando

Só posso dar ao mundo o que tenho: mãos e pés.
Andar se aprende andando
O coração se reinventou
Esqueceu de me avisar
Fiquei pra trás olhando a esquina que passou
Eu que tinha certeza da resposta
Achei que podia inventar o final da minha história
Agora fiquei aqui me sentindo um pouco tola...
Como se tivesse saído sem arrumar a cama.

Estou diante da porta
Esqueci a senha
Não se pode mais entrar
Preciso inventar uma outra
Encontrar outra porta
Ou mesmo ser porta.

Sem passar agosto esperando setembro
Não podem haver amanhãs
Antes do Hoje
que é singular.

Sensação amarga de perda retardada,
perda que na verdade não se teve
porque nunca houve o que perder.

Sensação anacrônica:
Uma composição de tempos múltiplos,
Confusão de setas que apontam pra Lugar-Nenhum
Consumida por um nada.

Para emergir do Nada
É só me esquecer de ser
Sou humana e condenada à consciência
Embora saiba de alguns métodos alienantes bastante salutares,
Hoje preciso esquecer do que sei
Saber me faz tentar parecer o que não sou
Acabo virando uma tela cubista:
Um esboço grotesco de mim.

Quando se é não se tem o que mostrar
pois já não se tem também o que esconder
Sem vergonha nem orgulho do que foi
Basta seguir
A esperança não pode ser adiada
A esperança no Hoje é só fé
Basta a Fé em ser o que se é

E então
Cada instante vira uma invenção, uma improvisação, uma percepção
Me basto.



"Continuamente vemos novidades,
Diferentes em tudo da esperança (...)"
Camões)

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

respeitar(-se)

Sa(ir)
Voltar
Sa(ir)
Voltar
Sa(ir)
Voltar

ir

amar

deixar

O movimento de (sa)ída não pode ser feito
sem o da volta
Pois nada cresce de um dia para o outro
Sem o choque
da volta

Como voltar
s(e)m ver o que se deixou mudar?
Como voltar
s(e)m desprezar o que se deixou?

Pois que para voltar há de se ter
Liberdade
para consigo
e para com o outro:
Respeito

Respeitar(-se):
tudo o que se teve,
amar-se no outro.
Curvar-se à vida:
compreensão mútua.
Confiança pura:
presente-passado.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

eu tive um sonho

Quando o que resta é fechar os olhos
pro impossível
Descansar é esquecer
Permaneço aqui: limiar da quase-tristeza
Pois é uma tristeza que não chega a ser:
não dá tempo.

Olhos indecisos entre o nada
e o precipício
Pés: um passo à frente, dois atrás
Corpo que perambula entre ações (in)acabadas
A alma entre a calma e o desassossego.

Habito
no cheio que é vazio,
no largo que é apertado,
no aberto que é fechado,
no perto que é longe
ou
na resposta que é pergunta?

E o que não foi não é, mas gerou outro ser.
Vida:
conjunto de ações-não-agidas.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

a estrada

A única estrada que houve é a que já ficou pra trás:
o rastro dos meus pés
essa é estreita
por ela já não posso mais caminhar
e a cada segundo que passa
o vento apaga
e dela só resta memória (quando-resta)

E o que fica é só chão
o caminho ainda por traçar

Hoje sei que a confiança não nasce no horizonte mas dos pés em contato com o chão

E todos aqueles


castelos


projeções


se


e

s

va

e

m

(trans-)formações que dissolvem no vento e
no presente ganham uma formação
muito outra da que se poderia pensar ter avistado

É no minuto agora que ganho forma
E essa estrada que ainda não existe é larga
O horizonte, I M E N S O
E nele, tudo (im-)possível

Só o hoje possível:
pão-com-margarina-cotidiano

Todo dia chego no horizonte.