domingo, 18 de agosto de 2013

amarelo

amarelo
sai de dentro de mim
escorre pelas pernas sujando roupas, pés chão, espaço

tente esquecer
esquecer é o impossível, o impossível que nunca se repete
só repete dentro de mim.
só o impossível dentro de mim (como um disco arranhado).

Um disco arranhado se repetindo.
Os músculos sempre tensos
Se esquecem quando podem relaxar
Pontos que doem por todo o corpo
O remédio que não é espera
Que me suja por dentro
E tudo por fora (sempre limpo, sempre em ordem)
Dentro é sujo
A sujeira transbordando pela vagina
As entranhas se apertando
Se reprimem
A cabeça pesando.
Os ombros caindo
Acordo no meio da noite com a perna travando
O pescoço também travando
O corpo desmontando pelo que não entende

Deixo-me desmontar pelos segundos, pelos minutos, pelas horas, pelos dias.
Sem forças pra falar
Mais uma draga que engulo
Mais uma draga que me engole.

Distâncias que nunca se encontram porque são a incoerência uma da outra.

A dor alerta.
dilata.
estala.
engasga.
entope.
concentra.
aperta.

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

a bela que virou fera

era uma vez a bela que aprendia a ser fera e a fera que aprendia a ser bela, só que o era uma vez já era.


"Hoje eu acordei com medo mas não chorei
Nem reclamei abrigo
Do escuro eu via um infinito sem presente
Passado ou futuro
Senti um abraço forte, já não era medo
Era uma coisa sua que ficou em mim, que não tem fim
De repente a gente vê que perdeu
Ou está perdendo alguma coisa
Morna e ingênua
Que vai ficando no caminho
Que é escuro e frio mas também bonito
Porque é iluminado
Pela beleza do que aconteceu
Há minutos atrás"

https://www.youtube.com/watch?v=xYQDMX-Z9K4


andar na rua e ver a fera em cada pessoa que passa
andar na rua e se sentir fera de si mesmo.

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

acreditar

e agora como vou fazer pra dizer o que sinto no sumo do peito? como dizer que não acredito mais? por que às vezes parece tão real, mas depois parece que vou afundar de novo? afundo e afundo num ciclo vicioso. eu quero sair, ver a luz, não quero cair no abismo pela segunda vez. E se eu acreditar? E se eu achar que acredito em algo que não é, que nunca foi? Por que sempre me sinto tão vulnerável a você? a porta está aberta e eu não posso sair. não quero ser Teresa e ir embora querendo na verdade que você venha me resgatar. sua indiferença impassível é o que mais me destrói, perto disso me sinto tão fraca e caio de novo no abismo. Parece que tudo o que acredito vira sonho, que nunca existiu... como faço pra ver o que é? por que você não se importa e eu fico me sentindo mais uma vez exposta à poeira dos dias... no fim das contas parece que tudo só existiu dentro de mim. e eu já não sei mais como acreditar. dá vontade de parar de tentar arrancar as raízes... e só deixar elas entrarem mais na carne. por que estou desistindo tão fácil? é que o medo de pensar que sou livre pra ir é maior do que o meu medo de ficar.

"De Ulisses ela aprendera a ter coragem de ter fé - muita coragem, fé em quê? Na própria fé, que a fé pode ser um grande susto, pode significar cair no abismo, Lóri tinha medo de cair no abismo e segurava-se numa das mãos de Ulisses enquanto a outra mão de Ulisses empurrava-a para o abismo - em breve ela teria que soltar a mão menos forte do que a que a empurrava, e cair, a vida não é de se brincar porque em pleno dia se morre."