quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

libertar-se de si

"a vida não perdoa quem quer se reescrever"

só eu posso me salvar
isso eu já sei
resta saber como
muitos caminhos
poucas soluções
me enrosco num ninho
num casulo
que parece nunca se abrir
nele fiz um buraco
pelo qual posso acompanhar o mundo
vigiando o momento oportuno
de sair da prisão

"pássaro proibido de sonhar
o canto macio, olhos molhados,
sem medo do erro maldito
de ser um pássaro proibio
mas com o poder de voar
(...)
voar até a mais alta árvore
sem medo, tranquilo, iluminado."

aguarda o momento de voar.

tem vez que fica tranquilo e em paz consigo:
certeza de que o momento chegará
certeza de onde está
de onde quer chegar

tem vez que a vida emperra
sem saber pr'onde ir
sem saber quando parar
onde parar
se parar

vontade de gritar
vontade de esquecer
vontade de deixar de ser

como é sonhar com o quê ainda não se acredita alcançar?
antes será preciso libertar-se de si.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

(en/in)t(r)eg(r)a

se integrando
se entregando
pode-se escutar a respiração do mundo.

já não se encontra mais facilmente
quem nos olhe nos olhos
quem nos toque na pele

(de)vagar
honesto
manso

quem nos escute com alma a alma
quem nos fale de sentimento
e não de coisas-com-alguma-utilidade-prática-e-de-fácil-definição
quem nos veja como somos
e não torça a cara
e não faça piada

quem nos ame
humanamente

já não se encontra mais
quem se integre
quem se entregue

Existem tantos universos
Somos tantos universos

há de haver quem ainda tope essa jornada?
ser e estar no outro e em si.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

coragem

Gritem
riam
desdenhem
vaiem até
façam e digam o que quiser
mas saibam que hoje eu ouvi
ouvi minha Mãe chamando

A verdadeira
A que sempre me acolheu
mesmo quando estávamos distantes
A que sempre soprou secretamente em meus ouvidos
o motivo de eu estar no mundo

e eu, filha desatenta que sempre fui
quis nem lhe dar ouvidos

Hoje, somente
hoje eu não ouvi
apenas senti fundo na alma
seu chamado
e ardendo em chamas fui ao seu encontro

Então
hoje
pela primeira vez
nenhuma palavra que me disserem vai me convencer do contrário
nem qualquer pessoa poderá dizer que isso não é para mim
nada vai mudar o que sinto ou me pôr medo

E quando procurarem por mim
diga que estou seguindo em frente
going to meet the one I love.

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

entrega

É quando não há espaço para dúvidas
o corpo se entrega a alma
você apenas sente a resposta muito certa vindo de dentro
a resposta lateja dentro:
você é a resposta.

Certeza de ser merecedor
certeza de que enviar sua resposta ao universo é um sinal de entrega
é disso que resulta a fé
ela brota bem sincera
como a grama que nunca seria arrancada.

É quando não há espaço para medos
e deus nos acolhe como frágeis que somos
e somos parte do todo
e a gratidão chega antes da graça
e o tempo nos dignifica
e a espera já não existe porque
É o que está certo.

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

travessia

a vida é uma eterna travessia
pra quem só encontra seu movimento nas pedras do caminho

a morte é a pedra
a morte é o que nos põem em movimento
nos mostra o quanto de vida trazemos cá dentro
morrer é a maior prova de vida que podemos nos dar
ausentar-se da vida é fechar os olhos esperando que assim ela passe mais rápido
quando ouvimos a voz da morte é a vida chamando
sound is a colour I know...*

como posso descobrir quem sou
se me invento a cada dia?
sinto que estou dentro do coração selvagem
no ponto de tensão entre a vida e a morte

sou.

"Sou a onda leve que não tem outro campo senão o mar, me debato, deslizo, voo, rindo, dando, dormindo, mas ai de mim, sempre em mim, sempre em mim..." (Clarice Lispector, em "Perto do coração Selvagem")

*referência à música "East Harlem", do Beirut

domingo, 25 de novembro de 2012

do amor

Todos querem um amor
Todos querem ser felizes
só que querendo, não o são
porque querem

Querem dar um sentido ao amor
Querem que ele preencha o vazio das Horas
Só que o amor nunca prometeu curar a humanidade de ninguém

O amor não devia ser uma fuga da existência
porque então acusam o suicida de covarde?
covardia maior fazem ao amor

coitado,
anda por aí
mal-tratado
mal-compreendido
mal-sentido
mal-amado

Enquanto tentamos dar um sentido ao amor
Equanto esperamos que ele preencha nossos vazios
Não estamos amando
porque amor não tem utilidade alguma
só é amor.

"Em cada maldita gaiola lá fora existe um ser humano tentanod ser feliz."
(do filme O baile de outono, Estônia, 2007)

sábado, 24 de novembro de 2012

das flores

Me disse que preferia as flores-de-plástico:
"elas não precisam provar ao mundo que estão vivas"
"elas não precisam desabrochar,
já nascem prontas"

Mas há nas flores-verdadeiras uma sinceridade insubstituível:
elas ouvem sua natureza,
apenas,
brotam-desabrocham-morrem dentro de seu tempo
conseguem ser da maneira mais pura que a terra lhes fez
são e nada mais
verdadeiro símbolo da maturidade do ser
o ser que não pensa antes de agir
sensível à sua própria natureza
não teme
basta ser.

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

da guerra

Quem sabe o que é viver na guerra?

mau-presságio
é melhor não falar
é melhor não pensar

medo
sufoco
inferno
falta de ar

coragem?
pra onde foi?

de repente
bolhas de sabão estouram no seu ouvido
mas não eram bolhas de sabão

aqui, criança cresce antes da hora
a beleza foi-se embora.



"Quando vi Teresa de novo
Achei que os olhos eram muito mais velhos que o resto do corpo
(Os olhos nasceram e ficaram dez anos esperando que o resto do corpo nascesse)"

(Manuel Bandeira, A vez primeira que vi Tereza)

amanhecer

novo amanhecer desponta no horizonte
é bom se ver nu diante de si
e dos outros
podem até dizer que é fraqueza, pois que digam
abdicar da armadura podia parecer covardia até pouco tempo atrás

não mais

ato heróico
que humaniza

sair da armadura e ver a imensidão do mundo
ver que dele posso fazer o que quiser
comê-lo em maçã

no abandono do estreito
ver o dia nascer
seja ele triste ou feliz
enfim um outro dia

descobrir que o peso não estava nos dias
mas na armadura que insistia em carregar

amanheço no fim.

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

a rainha do gelo

Era uma vez uma menina
que se trancou no alto de uma torre
pra da vida se proteger:

do Amor jurou esquecer
era melhor fechar os olhos

dos amigos preservou os poucos que tinha
a visitavam quando sua solidão lhe engolia

guardava sempre uma quantidade certa de ar
o suficiente pra poder respirar

rejeitou o amor de mãe
dizia que estar consigo era o quê bastava

fugia do vento
pra em suas pernas não se embaralhar

acabou esquecendo do que era viver.

Um dia, deu um golpe de estado
e declarou independência de si mesma.

mas então restou um grande vazio:
por onde começar?

resolveu deixar a correnteza levar...

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Das certezas-móveis

Quero comprar certezas-móveis
cansei daqueles prédios enormes
dos armários de cozinha imbutidos (ou inrustidos?)
tudo sempre tão em "seu-devido-lugar"

Quero comprar certezas-móveis
descobri que minha casa pode voar
é só cismar...

Quero comprar certezas-móveis
de nada adianta guardá-las no bolso
melhor trocar
ficou velho
ficou usado
melhor trocar

Lembra daquela mobília velha?
os cupins a roeram em sua imobilidade
até o osso
e reclamaram de seu gosto amargo.

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

da ciência

Mas são tantas teorias
classificações

Falam-me de uma língua
antiga
distante
abstrata

Muito outra
da minha

Eles não falam a minha língua
Dizem que preciso entender a língua deles pra entender o quê falo

Há dias que conseguem nos fazer sentir mais inúteis na vida.
No avesso do universo se encontram.

É possível.
Não é.

No infinito esparramado do espaço
duas estrelas se avistam
Cada qual em seu silêncio de estrela
Cintilam sob a mesma órbita
No entanto, nunca se encontram.

O que avistam?
A beleza de si mesmas ou a ilusão
de um faixo de luz já morto?
Avistam-se e é só.
Não lhes foi dado o direito de perguntar.
Não lhes foi dado o direito de saber.
É
por hora vou ficando aqui
com essa ruguinha insistente na testa
tentando entender
com esse gosto de desgosto na boca
com essa náusea na boca do estômago

só por enquanto
só por enquanto

tomar um café pra tirar o amargo da boca.

"Haver deseja Não-Haver. Mas como Não-Haver não há, conforme o próprio nome está dizendo, resulta desse desejo insistente e inarredável uma quebra de simetria originária, a partir da qual tudo que existe (material e espiritualmente dado) se organiza." (Freud, via Aristides Alonso)
Era interessante perceber
como as pessoas não respeitavam
a solidão alheia

Talvez porque não se permitissem elas mesmas
estarem sós
Talvez apenas porque não-vissem-sentido-nisso
Elas não suportam serem olhadas nos olhos

Há medo

Há as que nem cogitam mais essa possibilidade (são as mais difíceis)
Será que acham que é à toa ter-se dois olhos e uma boca?
"que coisa mais estúpida ser infeliz!"

Às vezes temos intuições,
certezas.
Acreditamos estar sendo abençoados por
breves e intensos
jatos de lucidez nos olhos.

Sentimos brotar dentro do peito
certezas incontestáveis.
Que servem muito bem pra nos acalmar momentaneamente
nada além disso.
Talvez não passem de ilusões
criadas por nossa mente
Busca desesperada por um momento de sossego
No minuto seguinte
Basta um estalar de dedos da vida
Para vermos infinitamente tudo (des)andar.

E dessa vez só resta uma final certeza
a derradeira
a que ouvimos verdadeiramente com o coração:
Foi sentir que tudo tem seu devido
lugar
Sempre teve.
A gente é que quer sempre nomear

Fé cega. Faca amolada.

Não ao só-resta-acreditar
É só acreditar. É o que é.
Não é pra ser a-última-opção
É a única.

Felizes daqueles que aprenderam a se encontrar se perdendo.

do mundo

e foi então que se deu conta do U-NI-VER-SO de coisas que existem pelo mundo. se deu conta do quanto sua visão era estreita e do quanto a visão de todo mundo era estreita. e começou a sentir que nunca mais seria o mesmo. e que precisava gritar isso pra todo mundo! não faz sentido algum: se há tantas coisas interessantes pelo mundo, por que as pessoas faziam questão de se restrigirem a si mesmas? a padrões, a paradigmas que só fazem copiar o mais do mesmo? nunca mais seria o mesmo. cada vez vai ficando mais difícil viver dentro da jaula. a liberdade é algo que se dá? suporta-se tanta ignorância para depois se ter algumas gramas dela?

Flores

Porque vejo flores vindo no vento
Cansei de perguntar a mim mesma quem sou
Se sempre que me decido vento vem pra me (con)fundir
Fundindo-me em algo tão diverso do que podia pensar ser
Lança-me na ventania
É quando cada ferida se torna uma flor
Eu mesma virando toda uma flor
Flor que voa no vento
que descansa no olho do furacão
Sem tempo pra perguntar aonde vai

Da (não-)linearidade do ser

Naufrago em mim mesmo
Num mar de expectativas encharcadas

me debato
me desespero
me espero

Talvez - enfim
a calmaria
a serenidade
há muito perdidas.

Descanso merecido pra quem
no nada insiste em nadar
no vento insiste em voar

mesmo sabendo que asas não recebeu

há de se tentar
há de se afogar
há de se entregar

mesmo sem saber para o que.

E, no fundo de si,
apenas sentir aquela falsa certeza
de ter ouvido o que o coração disse
num sussurro breve e soprado
que toda a vida pode durar.
E poder sentir por alguns instantes
o doce e o efêmero sabor da calma.

E isso lhe bastará.

Hello Stranger!

Dizer adeus
Quando dizer?
Depois que se passa do início
começa-se a se preparar para
o fim

Não importa se ainda nos amamos?
O end é inevitável
E se depois desse end houver um and?
esqueceremos
esqueceremos?
(como tantos outros esquecidos)

ressignificar
que significa ressignificar?
o amor não vem com manual de instruções
a vida nos leva.

Não somos mais os mesmos de 10 anos atrás.
Não seremos mais os mesmos daqui a 10 anos.
Não seremos mais os mesmos daqui a 10 minutos.

Pra onde vão os amores esquecidos?
Que se fazem deles depois que se vão?
Estão por acaso na caixa-preta do coração?
São pequenas gotas de ovalho sopradas

ao vento
ao tempo

Entregues a seu próprio esquecimento.
Naqueles momentos de perplexidade
se pegava imaginando o porquê

de tudo

Se despia de todas as expectativas

Frieza
Indiferença
Metal pontiagudo

Em troca, devolvia a mesma dor
Sabia que só o tempo podia curar o que é (des)feito
Nessas horas não há o que ser dito.
Somos um universo
de quereres
colcha-de-retalhos

Vez que tão seguros de nós parecemos.
Vez que nem olhar no espelho podemos.
Levou tempo pra me acostumar
a um caminho soprado
Sempre me esqueço e tento novamente traçá-lo
Então vento vem me lembrar
que nesse caminho só posso voar
Vez que preciso de asas nos pés pra não tropeçar

Se anuncia uma nova estação.
Quando no mais tudo quanto existe precisa deixar de ser.
Ser o nada
Nada precisa existir

gracinheza

As coisas precisam deixar de ser coisas, virar gracinheza

e só.